quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Cartão

Pelo que pude perceber, Maputo não é uma cidade conhecida pelo espírito natalino. Claro que usando referências como São Paulo, conhecida pelas belas decorações na Avenida Paulista, ou até mesmo Birigui, que tem parte da renda anual revertida apenas para as luzes na Praça Doutor Gama, fica difícil mesmo comparar. Mas a diferença mais notável são as ruas ainda mais vazias do que escuras. A semelhança fica pelos supermercados lotados. De resto, eu realmente senti falta de algo. Um lance fraternal, mesmo. Essa coisa besta de que ficamos mais generosos nessa época, e achamos que fazendo boas ações vamos compensar as merdas que fizemos ao longo dos outros 359 dias do ano. Esses momentos de sanidade espiritual fizeram eu me sentir ainda mais longe de todos os lugares que eu costumo chamar de casa. Até que um pedacinho de Brasil chegou na minha mão



Tivemos visitas. Uns amigos noruegueses que estão vivendo no Malawi pelo mesmo intercâmbio que nós vieram passar o natal conosco, e o Jonas, que mora com a Karol, trouxe um cartão de natal, dela pra mim. Com uma letra de forma que meu cérebro enTOCado agradece imensamente por ter lido, e algumas daquelas piadas que só eu ela entendemos. Depois da metade, minha leitura foi prejudicada pelas lagrimas. Uma, aliás, caiu no cartão, e acabou manchando um pouco (desculpa, Kiwizera). Depois que li, fechei o cartão, guardei nas minhas coisas, deitei na cama e sorri. 
Eu não sou popular pela minha crença em religiões ou seguimentos do mesmo, mas depois daquilo, algumas coisas mudaram de contexto na minha cabela. Natal não é só luzinhas piscando, não é presente caro, não é gente sorrindo pela rua, não é panetone e nem nada disso. O natal quem faz é você e quem você quer que esteja perto. Não precisamos celebrar o aniversário de Jesus, precisamente (até porque eu sigo duvidando que ele seja mesmo capricorniano). A cada dia 25 de dezembro, em que nosso corpo e mente sentem que um ciclo vai se encerrar, celebramos o nosso próprio reaniversário. Nosso ressurgimento. A chance que temos de ser melhor, pior, a mesma merda, e isso independe. Será novo. E por si só, será.
Natal não é sobre Jesus. É sobre nós.

Obrigado, Karol.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

CHAPTER SIX: FOOTBALL LEGENDS

Meus heróis dos vídeo games materializados em minha frente. Isso, claro, com a companhia de bons amigos e cervejas geladas, em estádio lindo e cheio de gente empolgada. Parece mentira, mas esse vídeo está aí para provar!

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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

CHAPTER FIVE: OUTRAS COISAS

Um vídeo com nada, sobre nada. Apenas as várias amenidades da vida em Moçambique.
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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Sétima Corda - Yamandu Costa em Moçambique

Pouco antes de entender a confusa e inteligentíssima simbologia das notas musicais usando as letras do alfabeto, eu por vezes me perguntava qual o sentido daquilo tudo. Se o fá é representado pelo F, porque o D não representa o dó? Por que o sol não pode ser simbolizado por, sei lá, um S? Faria mais sentido, admita.
Usando as cordas do violão em uma afinação utilizada numa maioria massacrante de músicas pelo mundo, temos mi, si, sol, ré, lá e mi de novo. Um conjunto harmônico perfeito. Dois ou três dedos posicionados de forma correta podem fazer a mais linda das notas de uma canção. Unindo ciência, matemática e técnica, reproduzir o som dessas seis cordas é notoriamente uma arte. Qualquer coisa além disso teria tudo para dar errado, certo? Errado!

A sétima corda, acreditem, é a mais grave de todo o violão. O dó, ou C (não faz sentido!) é tão marcante, forte e atraente que faz as vezes de outro instrumento tão popular quanto o nosso velho amigo: o contrabaixo.
Trocando em números: 10 dedos, 7 cordas, execução simultânea de pelo menos 3 vertentes instrumentais diferentes. Atrás de toda essa contagem, apenas um cérebro. Que pra entender tudo isso com tanta propriedade, imagino estar dividido em mais algumas incontáveis partes. Mas é ele. Apenas um homem. Fora de forma fisicamente e em plenas faculdades mentais intelectualmente. Vestido em paletas azuis, um óculos fundo de garrafa, chinelos velhos e um andar desengonçado e manco.
Eu não o via ha 10 anos, desde uma apresentação memorável no SESI de Birigui, cidade que represento aqui em Moçambique. Na época, menos rechonchudo e preciso, revezando entre histórias hilárias e execuções surreais, quando a sua tão marcante sétima corda quebrou, pegou emprestado o violão de segunda mão de algum fã na platéia e continuou uma das mais brilhantes noites da vida daquela platéia. Uma década, turnês internacionais e merecidos prêmios depois, Yamandu estava no mesmo metro quadrado que eu. Uma década, uma primeira viagem fora do Brasil e algumas tentativas de consolidação musical depois, eu encontrei de novo o melhor violonista fruto de terras tupiniquins.

Chuva torrencial, como há muito não se via em Maputo, atrasou o inicio da programação de um dos mais populares festivais de jazz de todo continente: o workshop do mestre Yamandu Costa. Se pra mim já era de uma emoção incalculável, imaginem para o Marcelo, que tem no violão clássico todos os seus planos. Nos prontificamos a enfrentar a chuva e qualquer outro pseudo desafio que poderia nos afrontar. Fomos ao workshop, tivemos momentos fantásticos, diálogos inspiradores e uma paz de espírito que vale sempre a pena ter por perto. Depois disso, o sol até voltou a cortejar a já não tão quente Maputo.
Noutro dia, o concerto estava recheado de gente importante e de público espontâneo. Não houveram cadeiras que suportassem a massa sedenta por aquelas amostras tão únicas da fusão gaúcha de música tradicional sulbrasileira com algumas embaladas características de países sulamericanos como Uruguai e Argentina. No repertório, novidades e clássicos, permeando tudo o que de mais insano Yamandu viveu nessa carreira longeva. Depois do fantástico concerto, uma oportunidade única: ir a casa do embaixador do Brasil, num coquetel em comemoração ao sucesso que foi esse evento. Não só comemos como nunca e bebemos como sempre, como fizemos amigos importantes e estávamos ali, a alguns passos do mestre percursor das sete cordas no Brasil.
Todos foram saindo, aos poucos, como em toda festa normal. Uns pois tinham compromissos, outros pois o álcool já os consumia. E lá estávamos nós. Embaixador, sua esposa, Yamandu, seu produtor, Matheus, Marcelo e eu. Um pouco depois que nos vimos sozinhos naquela sala de estar enorme, chegou o tão esperado violão. Naquele pocket show privado que tivemos, regados a choros (musicais e lacrimais) e cervejas, mesmo com toda a importância do momento, eu admito: por vezes, dei aquela pescada. Aquela cochilada que você nunca sabe se durou cinco segundos ou dois dias. Eram oito horas da manhã, minhas cabeça não aguentava tanta emoção e minhas pálpebras não suportavam mais a exaustão.
O sol nascia na janela. A vista para o mar, uma brisa fria, um copo de cerveja e uma trilha sonora ímpar. Se antes fosse esse o nosso fim de 'noite', estaríamos suficientemente contemplados. Mas ainda tivemos o prazer exaustivo de acompanhar Yamandu ao hotel (onde tomamos mais duas rodadas, provando o quanto a idade não o cansou) e recebemos lindos presentes: CD's, DVD's e sua amizade. Conselhos que sempre nos seguirão, orientarão e serão uma das mais lindas e duradouras lembranças de um final de semana lindo, realizador e duplamente maluco.

Yamandu foi, em Moçambique, o retrato do brasileiro. Foi depois de 10 anos, o mesmo cara que usou um violão simples e usado para terminar seu concerto. Foi a calma, a paciência e a serenidade. A humildade, acima de tudo. Yamandu sendo Yamandu, para variar...

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

CHAPTER FOUR: SOS

Crianças sorrindo, cantando e dançando. Nem sempre é assim, mas até mesmo quando eles fazem arte, são adoráveis. Espero que nesse vídeo vocês consigam entender um pouco do que estou tentando dizer.

Quer ficar por dentro dessa minha aventura maluca? Se inscrevam! Não custa nada <3


terça-feira, 21 de novembro de 2017

CHAPTER THREE: LOUD

Eu falei um pouco sobre o LOUD no texto anterior. E aqui, vocês podem ter uma noção visual de tudo o que aconteceu nesse dia fantástico!
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terça-feira, 14 de novembro de 2017

LOUD e o feminismo necessário

Emponderamento nunca é demais. Principalmente onde ele carece. Essa é a temática inicial do LOUD, um acampamento para meninas. Nesses dias, juntas, elas aprendem sobre força, respeito e pincelam por todo tipo de arte: literatura, música, dança e tudo mais que se enquadre. 
O evento foi um sucesso muito por causa da ajuda voluntária de muitas mulheres que também tem sua história dentro do contexto. Além das funcionárias da Music Crossroads, das atuais MOVER's e das próprias alunas do projeto SOS, tivemos a presença especialissima e aconchegante de amigas que fizemos na época da Noruega (que chique dizer isso), Sophie e Ingrid. A segunda delas, vale lembrar, é a fundadora da banda Diva'z, formada apenas por mulheres e que já vive seu segundo ano de história.

Foram três dias de confinamento. Crianças de aproximadamente 8 a 15 anos tiveram esse tempo para ouvir e aprender sobre música, além de formarem bandas e precisarem compor uma canção para a apresentação final. Poucas pessoas conseguem compor uma musica decente em três dias. E claro, não saiu nenhuma virtuose de lá. Mas para crianças na idade que estavam, com o tempo que tiveram e com os instrumentos que foram oferecidos, fizeram não só música, mas história. Em todas as apresentações, uma pausa acontecia e um poema era recitado. Muitos deles falando sobre sentimentos, convivência e até sobre a guerra de Moçambique, que aconteceu a não tanto tempo atrás e que chacinou africanos por todos os lados. Não era só feminismo que víamos ali. Era um engajamento geral. Algo que não vemos sempre, nem mesmo entre adultos em países desenvolvidos.

O medo que fica é o de isso se perder com o passar do tempo. Culturalmente, não só Moçambique mas boa parte da África tem seus costumes machistas. Como qualquer outro lugar, claro... Mas aqui o buraco parece ser ainda mais embaixo. O machismo é ideia fixa, inclusive, nas próprias mulheres. É algo quase impregnado. E não será muito estranho se a sociedade e sua subcultura dissolverem tudo o que essas meninas ouviram em três dias e que muito provavelmente não ouvirão mais durante todo o resto da sua vida.
Exemplo de como isso é mais sério do que parece, é que em partes mais distantes da capital existem tribos que educam as jovens a saberem cuidar de um marido, desde os afazeres domésticos até a hora do sexo. E coisas como essas não são exclusividade de Moçambique. Chisomo, minha companheira de casa, comentou sobre o porquê de muitas das mulheres terem o cabelo raspado em seu país, o Malaui. Na escola, cortam o cabelo das garotas para não parecerem atraentes aos meninos, não arranjarem 'namoradinhos' e, consequentemente, focarem melhor nos estudos para serem boas mulheres. Esses pensamentos retrógrados crescem junto com a menina, fazendo com que algumas delas até concordem com tal.
E foi depois que eu soube disso que o valor do LOUD na minha concepção aumentou exponencialmente. E mesmo que o que aquelas crianças ouviram em três dias de ensinamentos de força e resistência seja enferrujado pelo tempo e pela asfixia do machismo, é gratificante saber que, por ao menos três dias, elas souberam que são mais fortes do que aparentam.

domingo, 12 de novembro de 2017

CHAPTER TWO: IN MOZAMBIQUE


O segundo capitulo dessa aventura são nossos primeiros momentos em Moçambique, o país que é nossa casa de agora em diante. Se quiser ficar por dentro de todos esses vídeos, se inscreva no canal 
PS: Kristine mandando benzão na edição!


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Takulandirani New Home!

Lembram do blog do MOVE, que eu disse no texto passado? Então, minha amiga Karoline Ribas acabou de postar o texto dela! Ta fresquinho, e você pode dar uma lida nele em inglês por aqui. Como ninguém é obrigado a entender inglês fluentemente para ler um baita texto desse, eu pedi a autorização dessa maravilha de menina para postá-lo aqui, no Capulana, em português. Dá uma olhada no talento dessa jovem! <3

Foto: Karoline Ribas

'Meu nome é Karoline, tenho 22 anos, estou morando em Lilongwe no Malawi. Hoje a caminho do centro da cidade, dentro de uma van com capacidade pra 12 pessoas,  estávamos em 19, fora a criança no colo da mãe que dormia tranquilamente sem se importar com o calor, o barulho das buzinas e transito louco, refleti como vim parar aqui.

Essa é minha primeira viagem internacional, é a primeira vez que passo mais que um mês longe de casa, longe da proteção e conforto dos meus pais, longe dos amigos e da correria que a minha rotina sempre teve. Após cursar 4 anos e meio de faculdade, faltando apenas 6 meses para concluir o curso de Arquitetura e Urbanismo, abri mão do sonho da graduação para vivenciar a experiência do intercâmbio. Morar em outro país, onde a língua predominante é o inglês no qual eu não domino, conviver com pessoas de nacionalidades e culturas diferentes. Resolvi me desafiar. 

É bem mais complicado do que eu pensava, e a saudade é a pior inimiga agora, porque ela aperta o coração e em alguns momentos me tira da realidade atual que é aqui, aqui onde eu devo ficar agora e curtir cada segundo. Mas todos os dias que a saudade aperta, essa oportunidade me presenteia com momentos simples e completamente cheios de amor, que mostra o quanto vale a pena estar aqui vivenciando tudo isso. Momentos como abrir o portão de casa e nem se quer por o primeiro pé para fora e ser acolhida por várias crianças te saudando, e um simples cumprimento de mãos, arrancar sorrisos contagiantes, gargalhadas sem contar na farra que elas fazem, é mágico, te faz sentir verdadeiramente acolhido, te faz sentir especial por estar aqui.

Todas as vezes que os instrumentos pesam a caminho da Music Crossroads e começa doer o braço ou as costas, sempre tem uma mulher carregando um balde pesado equilibrando na cabeça vindo ao meu encontro, e como se não bastasse os kilos em sua cabeça, ela carrega seu filho amarrado com chitenje nas costas e não transparece dor ou cansaço, transparece força e resistência, o que mais precisamos todos os dias para darmos nosso melhor. 

Esse mesmo caminho para a escola é sempre interessante, pois diferente do normal que é andar pela calçada, com ruas pavimentadas, aqui andamos na rua, toda de terra, tem cheiro de fazenda, tem crianças brincando pela rua, tem olhares de curiosidade voltados pra nós, tem mesinhas improvisadas que vendem tomate e cebola em frente às casas, tem atalhos por entre os quintais que nos convidam a encurtar o caminho e acaba por "invadir" a privacidade de famílias que moram naquelas casas (a maioria sem muros e grades). É importante ressaltar como podemos transformar o olhar dos malawianos de curiosidade para acolhimento, basta cumprimenta-los em chichewa que eles abrem um sorriso como quem quisesse dizer "você é bem vindo aqui", e se você falar errado eles vão rir, uma risada que não vai te menosprezar, mas vai te fazer rir também e no final será divertido para ambos.

Os tons pastéis agora estão recebendo tons verdes vivos pois a seca está acabando, árvores que só possuíam galhos secos agora estão sendo preenchidas por folhas proporcionando sombra fresca para amenizar o calor, o calor aqui é muito intenso, mais que na minha cidade no Brasil, famosa pelo calor insano. Saudades Presidente Prudente! 

Dormir requer todo um processo, pois usamos mosqueteiro nas camas para nos proteger dos mosquitos transmissores da temida malária, e após alguns minutos de cuidado ao vedar a cama, você se deita para descansar e sempre tem um (ou mais) mosquitos cantando no seu ouvido, isso é terrível, mas faz parte do pacote, e desenvolve a habilidade ninja de tentar exterminar esses pequenos vilões.

Acredito que tudo isso possa parecer pequeno pra você que está lendo, mas é um pouco do que passamos aqui todos os dias. É estressante lidar e morar com pessoas de outras culturas, eu moro com dois Noruegueses, dois Moçambicanos e uma Malawiana e o choque cultural acontece todos os dias, mas às vezes o choque é divertido, ele sempre ensina algo e tudo vale a pena quando finalizamos uma performance no palco, com a nossa banda mista de nacionalidades e brindamos com uma cerveja (quente na maioria das vezes). Sou muito grata pelo que está acontecendo e pelo que ainda está por vir. 

Zikomo kwambiri!'

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

CHAPTER ONE: OSLO

Sei que fiquei um tempo sem postar. Mas estava trabalhando exatamente neste vídeo! Eu e minha amiga Kristine capturamos e editamos essas imagens para vocês conseguirem sentir um pouco do que foi a passagem por Oslo, na Noruega. Mais videos estão por vir! Aguardem!


terça-feira, 24 de outubro de 2017

"África"

A grande responsável por toda essa aventura é a JM Norway (clique aqui para saber mais sobre), e os caras criaram um blog para todos os MOVERs depositarem suas experiências. Nesse link aqui você pode conferir os posts dos outros MOVERs, até mesmo os de edições anteriores (estão em inglês, mas da pra fazer uma forcinha e tentar entender). Sou o segundo a postar no blog, então não tenho ainda como exprimir tudo o que realmente vou querer falar mais a frente. Então, tentei explicar mais sobre o social como um todo.
Segue o texto, espero que gostem!


'No Brasil as pessoas costumam generalizar o continente. Costumamos usar “África” para retratar todos os países que consistem de fato o território. E antes de sair de casa, os noticiários, os amigos, os jornais locais, todos diziam que “o Renan estava indo para a África”. E o pior é que eu mesmo não percebia o erro e deixei passar, mesmo com os MOVER’s anteriores mostrando toda a incrível experiência que tiveram no Malawi, desde a discrepância até a maior riqueza. E hoje, não só pela experiência louca que tenho vivido aqui, mas também por perceber o quanto eles ficam chateados com a forma errada que nos referimos, vejo que precisamos parar com isso o quanto antes.
Não nos culpo. O que chega pra nós, nas mídias, é muito parecido com a nossa atual opinião. O que incomoda é a falta de vontade de mudá-la, pesquisar e tentar procurar o real motivo das coisas realmente acontecerem e porque acontecem aqui. 

É pobre? Sim. Mas há a mesma desigualdade que estamos acostumados a ver em qualquer país de primeiro ou segundo mundo. O bairro que moro tem lindos prédios á direita e algumas casas mal construídas e apertadas a esquerda. Perto da praia, então... Mansões e hotéis com vista para o oceano. Enquanto isso, lá embaixo, trabalhadores recebem grandes cargas de insolação tentando vender qualquer coisa que tem em mãos para sobreviver. Nada de diferente até aqui, certo?

É subdesenvolvido? Talvez. Em horários de pico, filas de carros se formam nas ruas. E não são carros populares, não. Caminhonetes importadas em quase toda esquina (até pelo fato de não haver uma fabricação automobilística própria no país). Nas grandes avenidas, bares requintados que vendem um copo aguado de chopp pelo triplo do preço que você pode comprar uma garrafa de 600ml da mesma cerveja em um bar menos badalado. E o estilo dos moçambicanos geralmente alterna entre as clássicas e culturais roupas de capulana, tecido local, muito colorido e cheio de vida, e também entre as já conhecidas roupas badaladas e de marcas mais populares e aparentemente caras. Nada de tão diferente aqui, também.

Tem fome? Sim. Mas tem crianças pedindo moedas na calçada de restaurantes finos que vendem frango a preço de carret. Redes de fast food tomam o centro, pizzarias são sucesso e os preços, pros padrões locais, não são tão baratos quanto pode parecer. No mercado, produtos importados tomam as prateleiras e vegetais e frutas estão sempre frescos e bonitos, e por sua vez, não caros se comparados a proteínas. Valorizando a produção local e importando o necessário, dando uma ajuda na economia e no bolso do trabalhador. Alguma diferença?

Tem cultura? Acredite, sede de cultura você não sentirá aqui. Essa na verdade é a mais burra das perguntas, já que muito da cultura de muitos países, como o próprio Brasil, é importação da “África”. Desde as roupas, as danças, a música. Cultura é a grande responsável por colocar sorrisos nas bocas tristes que vemos em fotos na televisão ou em outdoors nas ruas de nossos países. Eles tem seu estilo de música próprio, sua forma tradicional de dançar, seu artesanato feito de forma não usual e mesmo assim tão lindo quanto qualquer artista europeu que expõem no Louvre. Além de ver os artistas se disporem a estender um tecido no chão, exporem sua arte e barganhar com você até o ultimo segundo por um preço bom para os dois lados. Diferente, pra você?


Moçambique existe. É um país que faz parte da tão grande “África”.
África que tem Etiópia, que tem sua própria linha aérea, que distribui voos por todo continente e parte da Europa, além de ser um dos países mais antigos do planeta.
África que tem Angola, que tem ritmos tocados em rádios pelo mundo a fora, um deles que inclusive inspirou o que hoje no Brasil é o ‘samba’ e que, vejam só, a partir do Brasil tomou o resto dos continentes.
África que tem Egito, um dos maiores pontos turísticos não só para historiadores, mas para todo um povo que sabe apreciar uma cultura tão ímpar, além de já conseguir sua sonhada classificação para a Copa do Mundo de 2018, na Russia, nas costas de Salah, atual estrela mundial do futebol e que joga em uma das mais disputadas ligas.
África que tem Somália, que recentemente sofreu o segundo maior atentado terrorista da história, atrás apenas do trágico acidente com as Torres Gêmeas, nos Estados Unidos. O numero de mortos aumenta a cada dia e já passa de 600, sem contar os feridos.
África que tem Moçambique. Um país que tem turismo, como praias lindas e de correntes tão quentes quanto seu clima. Tem cultura, como pubs e bares com música ao vivo e dias fixos com ‘jam sessions’ para todos conseguirem ter um bom espaço para mostrar o seu talento. Tem riquezas, como a literatura ou o cinema, que são atributos moçambicanos conhecidos internacionalmente. Tem boas pessoas, como um senhor que viu meu dinheiro cair do bolso e correu atrás de mim para devolver... É como qualquer outro grande país europeu ou americano. Também é um país que tem seus atentados políticos, como o presidente de Nampula, que foi assassinado recentemente por interesses mesquinhos. Tem seus problemas sociais, como a polícia ineficiente que nos assusta mais do que os próprios criminosos. Tem machismo, como as ‘brincadeiras’ que temos que ouvir quando alguma mulher passa perto de um rapaz assanhado... Coisas assim acontecem como em qualquer outro grande país europeu e americano, também. Um país que tem seus problemas. E tem suas virtudes. É país como qualquer outro. Mas por estar na “África”, ele vira a “África”. E por ser a “África”, ninguém liga.

Mia Couto, escritor moçambicano e conhecido em todo o mundo, disse em uma obra: “Para que as luzes do outro sejam percebidas por mim, devo por bem apagar as minhas, no sentido de me tornar disponível para o outro”. Não podemos dizer estarmos dispostos a conhecer a “África” se não apagarmos nossa deturpada visão e não estarmos preparados para acender as coisas que sempre estiveram na nossa frente, e não quisemos enxergar.'

sábado, 14 de outubro de 2017

O que eu tenho ouvido

Semana que vem, mais precisamente dia 26, será o segundo mesversário da minha vida em Moçambique. Já chegamos num ponto onde nem tudo é uma novidade tão grande, e as pernas já andam sozinhas por alguns caminhos. A grande semelhança ao Brasil é o fato do dinheiro acabar antes do dia de receber. De resto, estamos nos redescobrindo e, consequentemente, descobrindo outras coisas fora de nós. Mas essa frase poética não tem nenhum outro cunho a não ser o de começar a falar de um simples objeto que salva minha  vida diariamente, e pode salvar a sua: fones de ouvido. Unidos num combo "celular com Spotify + um pacote básico de internet", temos mais uns dias úteis de vida. Nos momentos de bad, costumo fazer uso do meu kit de emergência, deitar na cama, me cobrir e ligar o ventilador (isso nunca fez sentido, mas faço, não nego) e perco horas ouvindo músicas tristes, pesadas, de auto ajuda, de auto depreciação, que me instigam a compor ou me deixam com vontade de nunca mais tocar um violão. Essa mistura de sentimentos faz parte do pacote, aliás. Vim falar então, um pouco do que tem tocado nos meus fones.

Não que Moçambique não seja rica musicalmente, jamais diria isso. Aqui é a verdadeira fonte do afrojazz, quizomba e da já clássica e tradicional marrabenta: a musica folclórica, que tem danças e letras populares. Seria como o samba é pra nós. Eu venho estudando essa riqueza musical, mas ainda não sei o suficiente para recomendar nada. Por isso, minhas playlists seguem com muito de uma fase que não sei porque está me consumindo desde antes da viagem, que é o tal 'novo rock nacional' repleto de influências tropicais. Decidi escrever sobre essas bandas que tanto me ajudam, indiretamente.


Em todas as horas que estive no avião, não só uma música, mas um album inteiro figurou no meu celular: Unlikely, do Far From Alaska. A galera de Natal que faz um rock potente. O ultimo trampo deles está fenomenal, e vale a escuta. Far From Alaska que faz parte da mesma produtora de outras bandas que nunca foram segredo pra ninguém a minha eterna admiração: Supercombo, INKY, Ego Kill Talent, Medulla, Scalene, entre outros (essas três ultimas com trabalhos fantásticos lançados ainda esse ano). Todos figuram em peso nos fones, além das novidades não tão novas, mas não menos quentes, como o ultimo álbum do Zimbra, ou a Fresno, que me fez represtar a atenção neles depois de tanto tempo.

Mas, chegamos as duas mais importantes desses meses, e que merecem um único paragrafo de destaque: O Terno e Maglore.
"Melhor do que parece" claramente é uma das maiores obras da nova música brasileira, e não digo apenas no rock. Sou admirador dos caras desde 2012, no primeiro album, em que explodiam juventude e lembravam Beatles, Stones e Mutantes. E, incrivelmente, tais como os exemplos citados, no último álbum a evolução é surpreendentemente visível e audível. Vale a audição do álbum inteiro com devida atenção.
E bem, o que dizer do Maglore? A mais grata descoberta desse ano, indicação do amigo e também enciclopédia musical (e futuro papai) Eduardo Martinez. Estava já aqui quando os caras lançaram o "Todas as bandeiras", o álbum que, literalmente, me faz levantar da cama. Letras simples, melodias complexas, tudo o que talvez seja providencial na musica atual. A escuta não só do novo álbum, mas dos antigos registros precisa fazer parte da sua rotina.

Bem, fiz uma playlist no meu perfil no Spotify com um resumo de tudo o que tenho escutado. Se você ainda não tem uma conta no Spotify, está perdendo tempo, pois é maravilhoso. Enfim, espero que curtam e que pelo menos uma dessas músicas possa fazer o dia de algum de vocês melhor.


sábado, 7 de outubro de 2017

Relatório #1 - Segunda Parte

Depois do pre course, onde estavam confinados apenas os MOVERs, fomos ao youth camp, um lugar com, literalmente, gente do mundo inteiro que ia para o mundo inteiro. Foram experiências incríveis, que eu mal consegui traduzir em apenas dois parágrafos do relatório. Mas, espero que gostem do texto!

"Um pouco desesperançosos por conta dos problemas do pre course, fomos ao youth camp. Apesar disso, foi difícil se despedir das boas amizades que fizemos e ficariam em Oslo, como as Ingrids, a Sandra, o Klaus e a própria Kina, que vale lembrar, sempre nos deu toda assistência possível, e se mostrou extremamente orgulhosa com nossas apresentações. E bem, se já achávamos Voksenasen um hotel extremamente foda, fica fácil imaginar a cara de espanto que fizemos quando chegamos aos aposentos do youth camp. Com vista pro lago e tudo mais! Mas novamente, mal tivemos tempo de descobrir como o chuveiro funcionava e já tínhamos que aparecer nas reuniões, conferências e palestras que aconteciam TODO TEMPO. E como se não bastasse, todas as noites precisávamos estar em reuniões dos grupos que foram formados por pessoas de todos os programas de intercâmbio: mais uma chance de desafiar nossa capacidade de improvisar o inglês. Esta parte foi triste. Eu e Marcelo estávamos no mesmo grupo e não conseguimos imprimir muito nossas ideias. Acabamos usando nossos violões e tocando uma música de fundo para a apresentação final. Mas ok, até então. O conforto eram os outros brasileiros, dos outros programas, que acabamos conhecendo e tendo razoável contato. Um deles, o Carlos, até promoveu um mergulho no lago do hotel, na ultima noite, que por sinal estava bem fria. Só eu e Igor topamos a aventura, e saímos sem sentir os pés. Aventuras são pra isso.

Ah! Vale lembrar que no youth camp tivemos uma tradutora. A Liv, uma das MOVERs que veio para Moçambique, e acabou fluente na língua. Além de ser bem fofa, ajudou muito e se tornou uma grande amiga, que aliás, promete uma visita pra cá em breve. E essa ajuda foi de suma importância para absorvermos o pouco que dava para realmente entender. Teorias interessantíssimas, sobre a maioria da riqueza da humanidade estar dividida em apenas 5% da população, ou sobre a visão extremamente estereotipada que as pessoas tem de determinados países (algumas corretas, sobre a corrupção no Brasil, por exemplo) e na palestra sobre feminismo mostrar que, ao menos na Europa, os homens podem ser considerados feministas também (???). Ao final de tudo, a apresentação dos grupos foi emocionante, o dia após foi de despedidas, e ver o Igor e a Cintia entrarem no ônibus rumo a Oslo foi de partir o coração. No aeroporto, ainda encontramos a Assa, voltando para casa depois de uma turnê por bares noruegueses, e ela foi bastante solicita em nos ajudar com as coisas na viagem. Descemos, já fomos abordados por 3 ou 4 pessoas truculentas e mal educadas, mais por força do hábito do que por vontade própria. Encontramos a Tapiwa e enfim conhecemos os aposentos e o tão aclamado frango apimentado."

Obrigado por ler!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Relatório #1 - Primeira parte


Como eu (acho que) já havia dito, todo começo de mês precisamos mandar um relatório para a galera do Projeto Guri, explicando como foram as experiências no mês anterior. E bem, eu acho uma injustiça danada não compartilhar com vocês algumas dessas coisas.
Pra não ficar tão longo, vou dividir em partes. Nessa primeira parte, eu falei sobre o pre course, que é o período em que estudamos na Noruega, para virmos mais preparados pra cá.

Depois de uma viagem cansativa, uma escala tranquila e uma ou outra amizade interessante no avião, chegamos na grande Oslo. Se o aeroporto já impressionava, dava pra imaginar como seria o restante da estadia. Desde a recepção, com o ex intercambiário Klaus, até a compra dos bilhetes para o trem, tudo muito moderno, educado e organizado. Acontece que o primeiro grande desafio não demoraria muito a acontecer... Minha mala caiu, no meio do caminho. Os meninos correram para o trem, eu fiquei pra trás. Vi as portas fecharem na minha frente, juntamente com as minhas esperanças de sobreviver. Mentira, eu estava tranquilo. Sentei no banco e esperei. Imaginei que alguém voltaria, hora ou outra. Um wifi mágico apareceu no meu celular, e junto dele, uma mensagem do Marcelo me recomendando a pegar sozinho o próximo trem, pois eles estariam a minha espera. Desconfiado e sem saber o que viria, entrei. E na real, estar sozinho naquele momento foi um acidente que veio a calhar. Ver a paisagem na janela e ter tempo de refletir sobre tudo o que tem acontecido, foi mágico. Depois que os encontrei, o resto foi fácil. Ou eu achei que seria.

Todo mundo pareceu bastante interessante, a principio. Não tivemos muito tempo para apresentações antes do início do pré course. Mas o começo de tudo foi realmente muito mais complicado do que já seria, pela falta de prática no inglês. Eu, que era um dos mais preocupados com minha pronúncia, também era um dos que se comunicava menos pior. E mesmo assim, foi completamente difícil entender muitas das coisas que aconteciam. Mesmo com os tradutores que vieram depois. De qualquer forma, o que deu para ser absorvido, foi. E as amizades começaram a florescer (e as ressalvas com as pessoas, também). Como o Valé, que se perdeu em Oslo por displicência e desesperou todo mundo, ou um ou outro norueguês que tinha um comportamento mais ríspido e que não agradavam muito. De qualquer forma, muito aconteceu. Desde aulas muito interessantes no pré course, até um concerto fantástico da Orquestra Filarmônica de Oslo, um show intimistamente delicioso da ex MOVER moçambicana Assa Matusse, uma apresentação incrível que fizemos com composições próprias para um publico espontâneo e aconchegante no ponto mais alto da Noruega, e descer de lá de tirolesa e fazendo samba pros outros que chegavam. Entre grandes e pequenas coisas. Entre uma cerveja, um big Mac, um café da manhã, uma jam, uma volta no parque, tudo parecia mágico. Até o cansaço que já estava imbatível e o monte infinito de roupas sujas no quarto não era tanto problema, afinal. Até um bar com uma banda tocando a nata da música brasileira no centro da cidade nós conseguimos encontrar. Só estava difícil encontrar mesmo a famigerada ‘paz’. Por vezes nós, que não falávamos inglês, nos víamos sozinhos. Claro que hoje, vendo tudo o que aconteceu em Voksenasen, sentimos uma falta danada de toda aquela união e espírito de equipe, mas no momento, tudo o que queríamos era achar alguém pra conversar um pouco, e que não fizesse a cara de impaciência que os noruegueses faziam quando tentávamos abrir comunicação. De qualquer forma, não da pra dizer outra coisa sobre esse primeiro período que não seja “enriquecedor”. A Noruega nos acolheu, de fato. Ex MOVERs sempre nos tratavam com muito carinho, quando nos encontravam. Todos apresentavam seus lindos e bem sucedidos projetos, que de certa forma também aumentavam a nossa responsabilidade como pioneiros aqui em Moçambique. Mas eu não imaginava que aplica-los aqui seria o meu maior desafio. 

Na segunda parte, falarei do Youth Camp, um lugar cheio de gente de todos os lugares do mundo, cheio de aprendizado e belezas naturais.
Até!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Um mês


Eu poderia dizer que parece que foi ontem. Mas não. Parece que foram exatamente 30 ou 31 dias desde o primeiro passo em terras moçambicanas.
Esse meio tempo foi suficiente pra perceber muita coisa. E pra notar muita coisa que eu não vinha percebendo, também. Mas, acima de tudo, foi uma seleção quase natural pra saber em quem confiar, ou não.

Trabalho não faltou. E pelo que noto, esse é só o começo de uma possível enxurrada de jobs que virão. Além de estar totalmente atrelado a Music Crossroads, ajudando na organização de eventos e/ou cuidando de mídias sociais, ainda temos papel fundamental na organização de um festival enorme que terá sua primeira edição aqui em Maputo (saiba mais aqui), e essa semana começaremos as aulas com os alunos do SOS, um projeto que ensina música pra uma molecada bem difícil, mas igualmente disposta. E todo esse direcionamento de tempo me fez perceber do quanto eu estou com saudade de uma coisa que eu achei que seria a última falta que eu sentiria aqui: tocar bateria. Não estou dizendo 'tocar'. Na escola de música que trabalho tem uma bateria na garagem. É ok descer lá e tocar um pouco, não há problema... Mas não é esse o 'tocar' que eu me refiro. É o sem as aspas. 
Tocar. 
TOCAR. 
Pra valer, sabe? Esmurrar um prato de condução, quebrar baqueta, fazer (as famigeradas) caretas (que eu nem percebo, mas todos falam)... Nada muito diferente do que eu fazia em qualquer ensaio, em Araçatuba.

Claro, pode ser exigência demais pedir uma banda com o mesmo entrosamento de todas as que tive no Brasil. Mas torço para que o tempo e, parafraseando Mauro Junior, as pessoas interessadas e interessantes não demorem a aparecer. Até tenho cogitado estar com "sentimento guardado" por não conseguir liberá-lo em forma de atuação. De qualquer forma, as coisas se ajeitarão. Preciso acreditar nisso, afinal, foi pra isso que vim. Pra mostrar meu trabalho!

Mas, é claro, não estou reclamando. Tenho trabalhado em produções importantíssimas, aprendendo muito a cada dia, e o principal: conhecendo gente diferente. Tenho feito amizades revigorantes de uns dias pra cá. Algo que parece transcender. E dou graças a isso, já que sozinho eu não chegaria a lugar nenhum. Não que meus companheiros de casa não sejam bons. Só não parecem estar na mesma vibe. Eu sinto uma necessidade de desbravamento, uma gana de conhecimento, uma vontade. E junto comigo, acho que só vejo mesmo o Marcelo. Talvez seja uma coisa de brasileiro, mesmo. Ou talvez eu só esteja muito animado.


De qualquer forma, agradeço a todos os bons e ruins que entraram em meu caminho. Mesmo as novas amizades que percebi que tinha desde o Brasil. Todos me ajudam sempre, de uma forma ou de outra.
A rotina continua, e continuo procurando tempo para contar pra vocês.
Bom, ainda faltam oito meses. Acho que hora ou outra acontece.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

"Bem, obrigado"

De todas as peculiaridades mais peculiares que Moz pode mostrar, uma das mais gratificantes de perceber é o cumprimento. Quando você diz "Olá, tudo bem?", na grande maioria das vezes a pessoa responde "Estou bem, obrigado por perguntar. E você?"
Eu geralmente respondo "Também estou bem" (mesmo quando não estou bem, força do hábito) e não agradeço a réplica. E esse gesto tão simples acaba traduzindo muita coisa.

Quantas vezes as pessoas são gratas pela sua preocupação com elas? Aqui talvez também não sejam. Mas quando acontece, eles demonstram, e na maioria das vezes, sorrindo. E nós, desacostumados com tal fato, nem repetimos o mesmo agradecimento e deixamos a nota do receptor a mercê. Vale ressaltar que ninguém é obrigado a agradecer ninguém por tal. Mas fica a questão: Quantas vezes grato você foi por alguém se preocupar com você? E o contrário? Apesar de que, não sei se vale a pena mesmo questionar isso agora, tão no começo.

A semana está corrida, cheia de acontecimentos. Tantos que mal sobra tempo para pensar no que vou escrever. Agora mesmo, estou exausto no sofá enquanto Marcelo e Benjamin jogam xadrez. Amanhã tem mais um dia de trabalho, e quando penso estar preparado para aguentar a empreitada, sempre tem algo que me faça puxar o freio de mão. E geralmente não é nada que mereça a atenção que eu dou. Não é algo que mereça o meu 'obrigado por perguntar'.

Sigo tentando puxar as âncoras. Será breve, sinto. Mas por enquanto, não faz tão mal ter algo que me faça refletir sobre me preocupar mais com minhas pendências do que com o agradecimento do meu amigo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Chisomo

Tentando resumir o MOVE: Quatro países se envolvem diretamente nesse intercâmbio com foco na música. Brasil, Noruega, Malawi e Moçambique. Todos num 'troca-troca' sem fim.
O intercâmbio envolve instituições de ensino musical de cada país. Eu represento o Projeto Guri, e aqui em Moçambique vou trampar na Music Crossroads, junto do Marcelo, brasileiro que está na empreitada comigo, e dos meus amigos malauianos e noruegueses. E é justamente de uma deles que vou falar agora.

Chisomo é a mais nova de nós, talvez a mais nova de todo o MOVE. Tem apenas 18 anos, completos em janeiro. Veio do Malaui, país africano com pouco mais de 16 milhões de habitantes. Faz fronteira com Moçambique, aliás.
Chisomo era a porta voz do Malaui na Noruega, durante as aulas que tivemos antes de partir pros nossos respectivos destinos. Única mulher a representar seu país no MOVE, foi também a única a falar quando perguntada sobre a história do país de origem. Era a única representante da África a chegar pontualmente no horário das aulas. Quando tentávamos dar uma volta em Oslo para comprar uma cerveja ou algum rango, mesmo que não tivesse dinheiro ou disposição, sempre ia conosco. Talvez para se enturmar ou para aproveitar as paisagens, mas ela sempre era a única malauiana que estava entre nós. Seu inglês é perfeito, seu sorriso é lindo e suas danças são engraçadas. Olhar penetrado e voz afiada. Chisomo não é grande só por conta disso.
No Malaui, é a mais velha de três filhas. O pai é sul-africano, e não mora com elas. É uma casa inteiramente feminina. A mãe trabalha e Chisomo, mesmo nova, sempre cuidou das suas irmãs, que ainda são bebês. Todas as noites ela liga para sua mãe perguntando das irmãs, e a mãe dela sempre manda áudios engraçadíssimos pra nós. Mas a sua grandeza vai além disso.
Na volta do mercado, por um erro de cálculo, ela infelizmente ficou com as sacolas mais pesadas para carregar num percurso de aproximadamente 3km até nossa casa. Eu tentei pegá-las da sua mão, e ela não deixou. Eu disse que era pesado, ela disse que sabia, mas ia levar mesmo assim. Ela chegou em casa, visivelmente cansada, e começou a preparar a comida, já que coincidentemente era seu dia de cozinhar. Ela serviu cada prato, para cada pessoa. Eu disse que não precisava, e ela mais uma vez não se importou com minha indagação e repetiu a pergunta: assim está bom de arroz, Renan? Jantamos, e eu estava com aquilo tudo na cabeça. Precisei perguntar: No Brasil não é tão comum uma pessoa servir o prato de outra pessoa... Como é no Malaui? Ela foi categórica: Em casa é assim, e aqui será minha casa. Talvez ela não estivesse afim de contar que isso é normal no Malaui. Não que eu saiba, mas observando Tiyamike, o outro malauiano que mora conosco, é muito fácil deduzir que sim. O cara deixa a louça na mesa, reclama quando a comida tá ruim e recentemente esteve doente e pediu para Chisomo fazer um pouco de comida malauiana para ele se sentir melhor. E ela fez.

Chisomo é uma baita mulher. Mesmo servindo o prato de todos ou fazendo mingau para o Tiya, ela se mostra assim. O feminismo está além disso. Não que eu possa falar com propriedade, mas foi exatamente vendo a Chisomo que passei a notar que isso é lutar. É carregar peso, e mostrar sua cultura, é querer se sentir em casa, é cozinhar bem, é se preocupar com o próximo, é sorrir apesar de estar preocupada com sua família. Chisomo tem 18 anos. Aos 18, ela é o futuro da sua família e da música no seu país.
Chisomo é um mulherão da porra.

domingo, 3 de setembro de 2017

7 dias

A primeira vista, a primeira semana soou turística, a princípio. Deveria ter sido o primeiro contato, talvez o início da minha tentativa de se acostumar com toda essa mudança dentro e fora de mim. Mas não foi o primeiro contato, e sim o primeiro soco. O primeiro dos sete socos que levei a cada dia que eu acordava, e que este final de semana me levaram a nocaute.

No sábado cheguei, depois de uma turbulenta viagem na Ethiopia Airlines. Estou sendo literal quando digo 'turbulenta'. Depois de duas horas de voo, da Etiópia para cá, o avião simplesmente retornou a origem da viagem, alegando "problemas de sistema". WTF! Com que coragem eu entraria no mesmo avião para uma viagem de 5 horas? Foi desesperador,  mal dormi. Li um livro inteiro e a cada mini turbulência eu sentia um carinhoso beijo da morte no meu rosto. Na chegada, não precisei esperar muito tempo para notar o choque. Um extenso relatório, que eu era 'obrigado' a responder. Mais uma forte revista, uma observada acintosa em minha carteira de vacinação (justificável, né) e mais uma entrevista na saída. Entrei num carro com o volante do lado direito, pegamos uma avenida em que o sentido que vai é do lado esquerdo. Me senti andando dentro de um espelho.
Deixamos as malas, fomos jantar e parecia que tinha um pouco de frango naquela porção de pimenta. A primeira noite de (falta de) sono foi regada a Far From Alaska, água, repelente e uma ou outra lágrima. Não de tristeza, jamais. Talvez um choque do primeiro vislumbre, atrelado com um pouco de saudade e entusiasmo.

Acreditei na ilusão de que nos primeiros dias eu iria 'pegar leve'. Sentir aos poucos a mudança, deixar as coisas acontecerem sem pressa. Afinal, serão 10 meses! Pois é, errei feio e rude. Vi uma praia com águas de outro oceano, entrei numa van com 15 lugares com 32 pessoas dentro, fui mal tratado dentro da embaixada do meu próprio país e incrivelmente bem tratado na embaixada do Malawi, comi pizza de rim, brinquei no playground do shopping, recebi festa de boas vindas, toquei jazz numa jam session, toquei pandeiro em outra jam session, dei um boné pra um completo desconhecido, conheci um cara que tentou roubar o tambor que temos em casa e na mesma noite conheci um cara que me falou sobre amor, sexualidade e futebol.
Assustador?
Foi pra isso que vim. Pra me assustar! Pra passar perrengue e pra crescer com isso.
Foram sete dias. Sete socos. Um Renan 7 vezes diferente.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Primeiramente...

#ForaTemer

Segundamente:
Este blog era parte dos meus planos desde a ligação do Projeto Guri, confirmando que eu teria passado nas seletivas. E, graças a Deus e ao wi-fi ruim, na Noruega eu mal tive tempo de ligar o computador. Hoje, depois de tanto tempo (incluindo quase 20 horas de voo), consegui. Comprei um chip com meu novo número moçambicano, um pacote de internet de 5MB por 500 meticais e estou usando o celular como um roteador. Talvez isso esteja consumindo toda minha internet, mas hora ou outra seria preciso. E eu e os meninos contamos com aquela força da JM Norway pra conseguirmos um sinal de wi-fi legal.

Enfim, estou aqui. No país que será minha nova casa pelos próximos dez meses. Um país quente, em clima e recepção. Não vou mentir, não é um paraíso... Não está nem perto disso, na realidade. Mas ninguém disse que seria. E eu também não estou aqui para revolucionar. Sou mais um, como qualquer outro aqui, disposto a aprender e ensinar o pouco que sei. Minha função não é mudar o mundo... Talvez esteja mais ligado a provocar uma pequena mudança em cada um. Isso pode reverberar, ou não. Mas preciso estar ciente da minha posição como receptor. Acredito que apenas sendo o que fui em todos esses 24 anos, incluindo (mais) erros (do que) acertos, naturalmente irei mostrar um pouco da minha cultura e da forma que levo a musica como algo vital. Não foi preciso muito tempo para me sentir musicalmente abrigado. É de se perceber o quanto a técnica e a virtuosidade não são a chave do ensino aqui. As coisas acontecem, no feeling, na unha... e acontecem! É lindo e é muito do que procuro quando toco a minha música. Me lembro até hoje do dia em que a Alessandra, coordenadora do Projeto Guri, perguntou o que eu tinha pra oferecer nesse intercâmbio. Fui sincero, disse que naquela sala de espera haviam músicos muito melhores, mais gabaritados e tecnicamente incomparáveis, mas se eu tinha algo a oferecer, era minha experiência na estrada, minha vivência no sub mundo do underground e minha vontade de fazer acontecer. E estou aqui!
Eu não vim fazer o brasileiro louco do samba. Tá, vou precisar tocar um samba hora ou outra, mas não vou mudar o que sou. Vim mostrar sim, minha cultura, minhas raízes. E elas estão calcadas no rock. Hoje absorvo muito melhor a música brasileira e suas vertentes, até pela minha atual fissura na Tropicália, movimento setentista que veio a me seduzir depois da execução do meu lindo e ultimo projeto antes de sair de Birigui, a Tropicadelia (curtam a page, não custa nada). E hoje, essa mistura de tudo o que sou é o que estou disposto a mostrar e agregar com o novo eu que serei aqui. Não voltarei o mesmo, e é isso mesmo que venho almejando.

Postarei sempre que puder, contando as novidades e tudo o que parecer interessante. Se curtiu, continue acompanhando!