Lembram do blog do MOVE, que eu disse no texto passado? Então, minha amiga Karoline Ribas acabou de postar o texto dela! Ta fresquinho, e você pode dar uma lida nele em inglês por aqui.
Como ninguém é obrigado a entender inglês fluentemente para ler um baita texto desse, eu pedi a autorização dessa maravilha de menina para postá-lo aqui, no Capulana, em português. Dá uma olhada no talento dessa jovem! <3
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| Foto: Karoline Ribas |
'Meu nome é Karoline, tenho 22 anos, estou morando em Lilongwe no Malawi. Hoje a caminho do centro da cidade, dentro de uma van com capacidade pra 12 pessoas, estávamos em 19, fora a criança no colo da mãe que dormia tranquilamente sem se importar com o calor, o barulho das buzinas e transito louco, refleti como vim parar aqui.
Essa é minha primeira viagem internacional, é a primeira vez que passo mais que um mês longe de casa, longe da proteção e conforto dos meus pais, longe dos amigos e da correria que a minha rotina sempre teve. Após cursar 4 anos e meio de faculdade, faltando apenas 6 meses para concluir o curso de Arquitetura e Urbanismo, abri mão do sonho da graduação para vivenciar a experiência do intercâmbio. Morar em outro país, onde a língua predominante é o inglês no qual eu não domino, conviver com pessoas de nacionalidades e culturas diferentes. Resolvi me desafiar.
É bem mais complicado do que eu pensava, e a saudade é a pior inimiga agora, porque ela aperta o coração e em alguns momentos me tira da realidade atual que é aqui, aqui onde eu devo ficar agora e curtir cada segundo. Mas todos os dias que a saudade aperta, essa oportunidade me presenteia com momentos simples e completamente cheios de amor, que mostra o quanto vale a pena estar aqui vivenciando tudo isso. Momentos como abrir o portão de casa e nem se quer por o primeiro pé para fora e ser acolhida por várias crianças te saudando, e um simples cumprimento de mãos, arrancar sorrisos contagiantes, gargalhadas sem contar na farra que elas fazem, é mágico, te faz sentir verdadeiramente acolhido, te faz sentir especial por estar aqui.
Todas as vezes que os instrumentos pesam a caminho da Music Crossroads e começa doer o braço ou as costas, sempre tem uma mulher carregando um balde pesado equilibrando na cabeça vindo ao meu encontro, e como se não bastasse os kilos em sua cabeça, ela carrega seu filho amarrado com chitenje nas costas e não transparece dor ou cansaço, transparece força e resistência, o que mais precisamos todos os dias para darmos nosso melhor.
Esse mesmo caminho para a escola é sempre interessante, pois diferente do normal que é andar pela calçada, com ruas pavimentadas, aqui andamos na rua, toda de terra, tem cheiro de fazenda, tem crianças brincando pela rua, tem olhares de curiosidade voltados pra nós, tem mesinhas improvisadas que vendem tomate e cebola em frente às casas, tem atalhos por entre os quintais que nos convidam a encurtar o caminho e acaba por "invadir" a privacidade de famílias que moram naquelas casas (a maioria sem muros e grades). É importante ressaltar como podemos transformar o olhar dos malawianos de curiosidade para acolhimento, basta cumprimenta-los em chichewa que eles abrem um sorriso como quem quisesse dizer "você é bem vindo aqui", e se você falar errado eles vão rir, uma risada que não vai te menosprezar, mas vai te fazer rir também e no final será divertido para ambos.
Os tons pastéis agora estão recebendo tons verdes vivos pois a seca está acabando, árvores que só possuíam galhos secos agora estão sendo preenchidas por folhas proporcionando sombra fresca para amenizar o calor, o calor aqui é muito intenso, mais que na minha cidade no Brasil, famosa pelo calor insano. Saudades Presidente Prudente!
Dormir requer todo um processo, pois usamos mosqueteiro nas camas para nos proteger dos mosquitos transmissores da temida malária, e após alguns minutos de cuidado ao vedar a cama, você se deita para descansar e sempre tem um (ou mais) mosquitos cantando no seu ouvido, isso é terrível, mas faz parte do pacote, e desenvolve a habilidade ninja de tentar exterminar esses pequenos vilões.
Acredito que tudo isso possa parecer pequeno pra você que está lendo, mas é um pouco do que passamos aqui todos os dias. É estressante lidar e morar com pessoas de outras culturas, eu moro com dois Noruegueses, dois Moçambicanos e uma Malawiana e o choque cultural acontece todos os dias, mas às vezes o choque é divertido, ele sempre ensina algo e tudo vale a pena quando finalizamos uma performance no palco, com a nossa banda mista de nacionalidades e brindamos com uma cerveja (quente na maioria das vezes). Sou muito grata pelo que está acontecendo e pelo que ainda está por vir.
Zikomo kwambiri!'