terça-feira, 14 de novembro de 2017

LOUD e o feminismo necessário

Emponderamento nunca é demais. Principalmente onde ele carece. Essa é a temática inicial do LOUD, um acampamento para meninas. Nesses dias, juntas, elas aprendem sobre força, respeito e pincelam por todo tipo de arte: literatura, música, dança e tudo mais que se enquadre. 
O evento foi um sucesso muito por causa da ajuda voluntária de muitas mulheres que também tem sua história dentro do contexto. Além das funcionárias da Music Crossroads, das atuais MOVER's e das próprias alunas do projeto SOS, tivemos a presença especialissima e aconchegante de amigas que fizemos na época da Noruega (que chique dizer isso), Sophie e Ingrid. A segunda delas, vale lembrar, é a fundadora da banda Diva'z, formada apenas por mulheres e que já vive seu segundo ano de história.

Foram três dias de confinamento. Crianças de aproximadamente 8 a 15 anos tiveram esse tempo para ouvir e aprender sobre música, além de formarem bandas e precisarem compor uma canção para a apresentação final. Poucas pessoas conseguem compor uma musica decente em três dias. E claro, não saiu nenhuma virtuose de lá. Mas para crianças na idade que estavam, com o tempo que tiveram e com os instrumentos que foram oferecidos, fizeram não só música, mas história. Em todas as apresentações, uma pausa acontecia e um poema era recitado. Muitos deles falando sobre sentimentos, convivência e até sobre a guerra de Moçambique, que aconteceu a não tanto tempo atrás e que chacinou africanos por todos os lados. Não era só feminismo que víamos ali. Era um engajamento geral. Algo que não vemos sempre, nem mesmo entre adultos em países desenvolvidos.

O medo que fica é o de isso se perder com o passar do tempo. Culturalmente, não só Moçambique mas boa parte da África tem seus costumes machistas. Como qualquer outro lugar, claro... Mas aqui o buraco parece ser ainda mais embaixo. O machismo é ideia fixa, inclusive, nas próprias mulheres. É algo quase impregnado. E não será muito estranho se a sociedade e sua subcultura dissolverem tudo o que essas meninas ouviram em três dias e que muito provavelmente não ouvirão mais durante todo o resto da sua vida.
Exemplo de como isso é mais sério do que parece, é que em partes mais distantes da capital existem tribos que educam as jovens a saberem cuidar de um marido, desde os afazeres domésticos até a hora do sexo. E coisas como essas não são exclusividade de Moçambique. Chisomo, minha companheira de casa, comentou sobre o porquê de muitas das mulheres terem o cabelo raspado em seu país, o Malaui. Na escola, cortam o cabelo das garotas para não parecerem atraentes aos meninos, não arranjarem 'namoradinhos' e, consequentemente, focarem melhor nos estudos para serem boas mulheres. Esses pensamentos retrógrados crescem junto com a menina, fazendo com que algumas delas até concordem com tal.
E foi depois que eu soube disso que o valor do LOUD na minha concepção aumentou exponencialmente. E mesmo que o que aquelas crianças ouviram em três dias de ensinamentos de força e resistência seja enferrujado pelo tempo e pela asfixia do machismo, é gratificante saber que, por ao menos três dias, elas souberam que são mais fortes do que aparentam.