Tentando resumir o MOVE: Quatro países se envolvem diretamente nesse intercâmbio com foco na música. Brasil, Noruega, Malawi e Moçambique. Todos num 'troca-troca' sem fim.
O intercâmbio envolve instituições de ensino musical de cada país. Eu represento o Projeto Guri, e aqui em Moçambique vou trampar na Music Crossroads, junto do Marcelo, brasileiro que está na empreitada comigo, e dos meus amigos malauianos e noruegueses. E é justamente de uma deles que vou falar agora.
Chisomo é a mais nova de nós, talvez a mais nova de todo o MOVE. Tem apenas 18 anos, completos em janeiro. Veio do Malaui, país africano com pouco mais de 16 milhões de habitantes. Faz fronteira com Moçambique, aliás.
Chisomo era a porta voz do Malaui na Noruega, durante as aulas que tivemos antes de partir pros nossos respectivos destinos. Única mulher a representar seu país no MOVE, foi também a única a falar quando perguntada sobre a história do país de origem. Era a única representante da África a chegar pontualmente no horário das aulas. Quando tentávamos dar uma volta em Oslo para comprar uma cerveja ou algum rango, mesmo que não tivesse dinheiro ou disposição, sempre ia conosco. Talvez para se enturmar ou para aproveitar as paisagens, mas ela sempre era a única malauiana que estava entre nós. Seu inglês é perfeito, seu sorriso é lindo e suas danças são engraçadas. Olhar penetrado e voz afiada. Chisomo não é grande só por conta disso.
No Malaui, é a mais velha de três filhas. O pai é sul-africano, e não mora com elas. É uma casa inteiramente feminina. A mãe trabalha e Chisomo, mesmo nova, sempre cuidou das suas irmãs, que ainda são bebês. Todas as noites ela liga para sua mãe perguntando das irmãs, e a mãe dela sempre manda áudios engraçadíssimos pra nós. Mas a sua grandeza vai além disso.
Na volta do mercado, por um erro de cálculo, ela infelizmente ficou com as sacolas mais pesadas para carregar num percurso de aproximadamente 3km até nossa casa. Eu tentei pegá-las da sua mão, e ela não deixou. Eu disse que era pesado, ela disse que sabia, mas ia levar mesmo assim. Ela chegou em casa, visivelmente cansada, e começou a preparar a comida, já que coincidentemente era seu dia de cozinhar. Ela serviu cada prato, para cada pessoa. Eu disse que não precisava, e ela mais uma vez não se importou com minha indagação e repetiu a pergunta: assim está bom de arroz, Renan? Jantamos, e eu estava com aquilo tudo na cabeça. Precisei perguntar: No Brasil não é tão comum uma pessoa servir o prato de outra pessoa... Como é no Malaui? Ela foi categórica: Em casa é assim, e aqui será minha casa. Talvez ela não estivesse afim de contar que isso é normal no Malaui. Não que eu saiba, mas observando Tiyamike, o outro malauiano que mora conosco, é muito fácil deduzir que sim. O cara deixa a louça na mesa, reclama quando a comida tá ruim e recentemente esteve doente e pediu para Chisomo fazer um pouco de comida malauiana para ele se sentir melhor. E ela fez.
Chisomo é uma baita mulher. Mesmo servindo o prato de todos ou fazendo mingau para o Tiya, ela se mostra assim. O feminismo está além disso. Não que eu possa falar com propriedade, mas foi exatamente vendo a Chisomo que passei a notar que isso é lutar. É carregar peso, e mostrar sua cultura, é querer se sentir em casa, é cozinhar bem, é se preocupar com o próximo, é sorrir apesar de estar preocupada com sua família. Chisomo tem 18 anos. Aos 18, ela é o futuro da sua família e da música no seu país.
Chisomo é um mulherão da porra.
