A primeira vista, a primeira semana soou turística, a princípio. Deveria ter sido o primeiro contato, talvez o início da minha tentativa de se acostumar com toda essa mudança dentro e fora de mim. Mas não foi o primeiro contato, e sim o primeiro soco. O primeiro dos sete socos que levei a cada dia que eu acordava, e que este final de semana me levaram a nocaute.
No sábado cheguei, depois de uma turbulenta viagem na Ethiopia Airlines. Estou sendo literal quando digo 'turbulenta'. Depois de duas horas de voo, da Etiópia para cá, o avião simplesmente retornou a origem da viagem, alegando "problemas de sistema". WTF! Com que coragem eu entraria no mesmo avião para uma viagem de 5 horas? Foi desesperador, mal dormi. Li um livro inteiro e a cada mini turbulência eu sentia um carinhoso beijo da morte no meu rosto. Na chegada, não precisei esperar muito tempo para notar o choque. Um extenso relatório, que eu era 'obrigado' a responder. Mais uma forte revista, uma observada acintosa em minha carteira de vacinação (justificável, né) e mais uma entrevista na saída. Entrei num carro com o volante do lado direito, pegamos uma avenida em que o sentido que vai é do lado esquerdo. Me senti andando dentro de um espelho.
Deixamos as malas, fomos jantar e parecia que tinha um pouco de frango naquela porção de pimenta. A primeira noite de (falta de) sono foi regada a Far From Alaska, água, repelente e uma ou outra lágrima. Não de tristeza, jamais. Talvez um choque do primeiro vislumbre, atrelado com um pouco de saudade e entusiasmo.
Acreditei na ilusão de que nos primeiros dias eu iria 'pegar leve'. Sentir aos poucos a mudança, deixar as coisas acontecerem sem pressa. Afinal, serão 10 meses! Pois é, errei feio e rude. Vi uma praia com águas de outro oceano, entrei numa van com 15 lugares com 32 pessoas dentro, fui mal tratado dentro da embaixada do meu próprio país e incrivelmente bem tratado na embaixada do Malawi, comi pizza de rim, brinquei no playground do shopping, recebi festa de boas vindas, toquei jazz numa jam session, toquei pandeiro em outra jam session, dei um boné pra um completo desconhecido, conheci um cara que tentou roubar o tambor que temos em casa e na mesma noite conheci um cara que me falou sobre amor, sexualidade e futebol.
Assustador?
Foi pra isso que vim. Pra me assustar! Pra passar perrengue e pra crescer com isso.
Foram sete dias. Sete socos. Um Renan 7 vezes diferente.
