quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Sétima Corda - Yamandu Costa em Moçambique

Pouco antes de entender a confusa e inteligentíssima simbologia das notas musicais usando as letras do alfabeto, eu por vezes me perguntava qual o sentido daquilo tudo. Se o fá é representado pelo F, porque o D não representa o dó? Por que o sol não pode ser simbolizado por, sei lá, um S? Faria mais sentido, admita.
Usando as cordas do violão em uma afinação utilizada numa maioria massacrante de músicas pelo mundo, temos mi, si, sol, ré, lá e mi de novo. Um conjunto harmônico perfeito. Dois ou três dedos posicionados de forma correta podem fazer a mais linda das notas de uma canção. Unindo ciência, matemática e técnica, reproduzir o som dessas seis cordas é notoriamente uma arte. Qualquer coisa além disso teria tudo para dar errado, certo? Errado!

A sétima corda, acreditem, é a mais grave de todo o violão. O dó, ou C (não faz sentido!) é tão marcante, forte e atraente que faz as vezes de outro instrumento tão popular quanto o nosso velho amigo: o contrabaixo.
Trocando em números: 10 dedos, 7 cordas, execução simultânea de pelo menos 3 vertentes instrumentais diferentes. Atrás de toda essa contagem, apenas um cérebro. Que pra entender tudo isso com tanta propriedade, imagino estar dividido em mais algumas incontáveis partes. Mas é ele. Apenas um homem. Fora de forma fisicamente e em plenas faculdades mentais intelectualmente. Vestido em paletas azuis, um óculos fundo de garrafa, chinelos velhos e um andar desengonçado e manco.
Eu não o via ha 10 anos, desde uma apresentação memorável no SESI de Birigui, cidade que represento aqui em Moçambique. Na época, menos rechonchudo e preciso, revezando entre histórias hilárias e execuções surreais, quando a sua tão marcante sétima corda quebrou, pegou emprestado o violão de segunda mão de algum fã na platéia e continuou uma das mais brilhantes noites da vida daquela platéia. Uma década, turnês internacionais e merecidos prêmios depois, Yamandu estava no mesmo metro quadrado que eu. Uma década, uma primeira viagem fora do Brasil e algumas tentativas de consolidação musical depois, eu encontrei de novo o melhor violonista fruto de terras tupiniquins.

Chuva torrencial, como há muito não se via em Maputo, atrasou o inicio da programação de um dos mais populares festivais de jazz de todo continente: o workshop do mestre Yamandu Costa. Se pra mim já era de uma emoção incalculável, imaginem para o Marcelo, que tem no violão clássico todos os seus planos. Nos prontificamos a enfrentar a chuva e qualquer outro pseudo desafio que poderia nos afrontar. Fomos ao workshop, tivemos momentos fantásticos, diálogos inspiradores e uma paz de espírito que vale sempre a pena ter por perto. Depois disso, o sol até voltou a cortejar a já não tão quente Maputo.
Noutro dia, o concerto estava recheado de gente importante e de público espontâneo. Não houveram cadeiras que suportassem a massa sedenta por aquelas amostras tão únicas da fusão gaúcha de música tradicional sulbrasileira com algumas embaladas características de países sulamericanos como Uruguai e Argentina. No repertório, novidades e clássicos, permeando tudo o que de mais insano Yamandu viveu nessa carreira longeva. Depois do fantástico concerto, uma oportunidade única: ir a casa do embaixador do Brasil, num coquetel em comemoração ao sucesso que foi esse evento. Não só comemos como nunca e bebemos como sempre, como fizemos amigos importantes e estávamos ali, a alguns passos do mestre percursor das sete cordas no Brasil.
Todos foram saindo, aos poucos, como em toda festa normal. Uns pois tinham compromissos, outros pois o álcool já os consumia. E lá estávamos nós. Embaixador, sua esposa, Yamandu, seu produtor, Matheus, Marcelo e eu. Um pouco depois que nos vimos sozinhos naquela sala de estar enorme, chegou o tão esperado violão. Naquele pocket show privado que tivemos, regados a choros (musicais e lacrimais) e cervejas, mesmo com toda a importância do momento, eu admito: por vezes, dei aquela pescada. Aquela cochilada que você nunca sabe se durou cinco segundos ou dois dias. Eram oito horas da manhã, minhas cabeça não aguentava tanta emoção e minhas pálpebras não suportavam mais a exaustão.
O sol nascia na janela. A vista para o mar, uma brisa fria, um copo de cerveja e uma trilha sonora ímpar. Se antes fosse esse o nosso fim de 'noite', estaríamos suficientemente contemplados. Mas ainda tivemos o prazer exaustivo de acompanhar Yamandu ao hotel (onde tomamos mais duas rodadas, provando o quanto a idade não o cansou) e recebemos lindos presentes: CD's, DVD's e sua amizade. Conselhos que sempre nos seguirão, orientarão e serão uma das mais lindas e duradouras lembranças de um final de semana lindo, realizador e duplamente maluco.

Yamandu foi, em Moçambique, o retrato do brasileiro. Foi depois de 10 anos, o mesmo cara que usou um violão simples e usado para terminar seu concerto. Foi a calma, a paciência e a serenidade. A humildade, acima de tudo. Yamandu sendo Yamandu, para variar...