Como eu (acho que) já havia dito, todo começo de mês precisamos mandar um relatório para a galera do Projeto Guri, explicando como foram as experiências no mês anterior. E bem, eu acho uma injustiça danada não compartilhar com vocês algumas dessas coisas.
Pra não ficar tão longo, vou dividir em partes. Nessa primeira parte, eu falei sobre o pre course, que é o período em que estudamos na Noruega, para virmos mais preparados pra cá.
“Depois de uma viagem cansativa,
uma escala tranquila e uma ou outra amizade interessante no avião, chegamos na grande Oslo. Se o
aeroporto já impressionava, dava pra imaginar como seria o restante da estadia.
Desde a recepção, com o ex intercambiário Klaus, até a compra dos bilhetes para
o trem, tudo muito moderno, educado e organizado. Acontece que o primeiro
grande desafio não demoraria muito a acontecer... Minha mala caiu, no meio do
caminho. Os meninos correram para o trem, eu fiquei pra trás. Vi as portas
fecharem na minha frente, juntamente com as minhas esperanças de sobreviver.
Mentira, eu estava tranquilo. Sentei no banco e esperei. Imaginei que alguém
voltaria, hora ou outra. Um wifi mágico apareceu no meu celular, e junto dele, uma
mensagem do Marcelo me recomendando a pegar sozinho o próximo trem, pois eles
estariam a minha espera. Desconfiado e sem saber o que viria, entrei. E na
real, estar sozinho naquele momento foi um acidente que veio a calhar. Ver a
paisagem na janela e ter tempo de refletir sobre tudo o que tem acontecido, foi
mágico. Depois que os encontrei, o resto foi fácil. Ou eu achei que seria.
Todo mundo pareceu bastante interessante, a
principio. Não tivemos muito tempo para apresentações antes do início do pré course. Mas o começo de tudo foi
realmente muito mais complicado do que já seria, pela falta de prática no
inglês. Eu, que era um dos mais preocupados com minha pronúncia, também era um
dos que se comunicava menos pior. E mesmo assim, foi completamente
difícil entender muitas das coisas que aconteciam. Mesmo com os tradutores que
vieram depois.
De qualquer forma, o que deu para ser absorvido, foi. E as amizades começaram a
florescer (e as ressalvas com as pessoas, também). Como o Valé, que se perdeu
em Oslo por displicência e desesperou todo mundo, ou um ou outro norueguês
que tinha um comportamento mais ríspido e que não agradavam muito. De qualquer
forma, muito aconteceu. Desde aulas muito interessantes no pré course, até um concerto fantástico da Orquestra Filarmônica de
Oslo, um show intimistamente delicioso da ex MOVER moçambicana Assa Matusse,
uma apresentação incrível que fizemos com composições próprias para um publico
espontâneo e aconchegante no ponto mais alto da Noruega, e descer de lá de
tirolesa e fazendo samba pros outros que chegavam. Entre grandes e pequenas
coisas. Entre uma cerveja, um big Mac, um café da manhã, uma jam, uma volta no
parque, tudo parecia mágico. Até o cansaço que já estava imbatível e o monte
infinito de roupas sujas no quarto não era tanto problema, afinal. Até um bar
com uma banda tocando a nata da música brasileira no centro da cidade nós
conseguimos encontrar. Só estava difícil encontrar mesmo a famigerada ‘paz’. Por
vezes nós, que não falávamos inglês, nos víamos sozinhos. Claro que hoje, vendo
tudo o que aconteceu em Voksenasen, sentimos uma falta danada de toda aquela
união e espírito de equipe, mas no momento, tudo o que queríamos era achar alguém
pra conversar um pouco, e que não fizesse a cara de impaciência que os
noruegueses faziam quando tentávamos abrir comunicação. De qualquer forma, não
da pra dizer outra coisa sobre esse primeiro período que não seja
“enriquecedor”. A Noruega nos acolheu, de fato. Ex MOVERs sempre nos tratavam
com muito carinho, quando nos encontravam. Todos apresentavam seus lindos e bem sucedidos projetos, que de certa forma também aumentavam a nossa responsabilidade como pioneiros aqui
em Moçambique. Mas eu não imaginava que aplica-los aqui seria o meu maior
desafio.“
Na segunda parte, falarei do Youth Camp, um lugar cheio de gente de todos os lugares do mundo, cheio de aprendizado e belezas naturais.
Até!