terça-feira, 26 de setembro de 2017

Um mês


Eu poderia dizer que parece que foi ontem. Mas não. Parece que foram exatamente 30 ou 31 dias desde o primeiro passo em terras moçambicanas.
Esse meio tempo foi suficiente pra perceber muita coisa. E pra notar muita coisa que eu não vinha percebendo, também. Mas, acima de tudo, foi uma seleção quase natural pra saber em quem confiar, ou não.

Trabalho não faltou. E pelo que noto, esse é só o começo de uma possível enxurrada de jobs que virão. Além de estar totalmente atrelado a Music Crossroads, ajudando na organização de eventos e/ou cuidando de mídias sociais, ainda temos papel fundamental na organização de um festival enorme que terá sua primeira edição aqui em Maputo (saiba mais aqui), e essa semana começaremos as aulas com os alunos do SOS, um projeto que ensina música pra uma molecada bem difícil, mas igualmente disposta. E todo esse direcionamento de tempo me fez perceber do quanto eu estou com saudade de uma coisa que eu achei que seria a última falta que eu sentiria aqui: tocar bateria. Não estou dizendo 'tocar'. Na escola de música que trabalho tem uma bateria na garagem. É ok descer lá e tocar um pouco, não há problema... Mas não é esse o 'tocar' que eu me refiro. É o sem as aspas. 
Tocar. 
TOCAR. 
Pra valer, sabe? Esmurrar um prato de condução, quebrar baqueta, fazer (as famigeradas) caretas (que eu nem percebo, mas todos falam)... Nada muito diferente do que eu fazia em qualquer ensaio, em Araçatuba.

Claro, pode ser exigência demais pedir uma banda com o mesmo entrosamento de todas as que tive no Brasil. Mas torço para que o tempo e, parafraseando Mauro Junior, as pessoas interessadas e interessantes não demorem a aparecer. Até tenho cogitado estar com "sentimento guardado" por não conseguir liberá-lo em forma de atuação. De qualquer forma, as coisas se ajeitarão. Preciso acreditar nisso, afinal, foi pra isso que vim. Pra mostrar meu trabalho!

Mas, é claro, não estou reclamando. Tenho trabalhado em produções importantíssimas, aprendendo muito a cada dia, e o principal: conhecendo gente diferente. Tenho feito amizades revigorantes de uns dias pra cá. Algo que parece transcender. E dou graças a isso, já que sozinho eu não chegaria a lugar nenhum. Não que meus companheiros de casa não sejam bons. Só não parecem estar na mesma vibe. Eu sinto uma necessidade de desbravamento, uma gana de conhecimento, uma vontade. E junto comigo, acho que só vejo mesmo o Marcelo. Talvez seja uma coisa de brasileiro, mesmo. Ou talvez eu só esteja muito animado.


De qualquer forma, agradeço a todos os bons e ruins que entraram em meu caminho. Mesmo as novas amizades que percebi que tinha desde o Brasil. Todos me ajudam sempre, de uma forma ou de outra.
A rotina continua, e continuo procurando tempo para contar pra vocês.
Bom, ainda faltam oito meses. Acho que hora ou outra acontece.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

"Bem, obrigado"

De todas as peculiaridades mais peculiares que Moz pode mostrar, uma das mais gratificantes de perceber é o cumprimento. Quando você diz "Olá, tudo bem?", na grande maioria das vezes a pessoa responde "Estou bem, obrigado por perguntar. E você?"
Eu geralmente respondo "Também estou bem" (mesmo quando não estou bem, força do hábito) e não agradeço a réplica. E esse gesto tão simples acaba traduzindo muita coisa.

Quantas vezes as pessoas são gratas pela sua preocupação com elas? Aqui talvez também não sejam. Mas quando acontece, eles demonstram, e na maioria das vezes, sorrindo. E nós, desacostumados com tal fato, nem repetimos o mesmo agradecimento e deixamos a nota do receptor a mercê. Vale ressaltar que ninguém é obrigado a agradecer ninguém por tal. Mas fica a questão: Quantas vezes grato você foi por alguém se preocupar com você? E o contrário? Apesar de que, não sei se vale a pena mesmo questionar isso agora, tão no começo.

A semana está corrida, cheia de acontecimentos. Tantos que mal sobra tempo para pensar no que vou escrever. Agora mesmo, estou exausto no sofá enquanto Marcelo e Benjamin jogam xadrez. Amanhã tem mais um dia de trabalho, e quando penso estar preparado para aguentar a empreitada, sempre tem algo que me faça puxar o freio de mão. E geralmente não é nada que mereça a atenção que eu dou. Não é algo que mereça o meu 'obrigado por perguntar'.

Sigo tentando puxar as âncoras. Será breve, sinto. Mas por enquanto, não faz tão mal ter algo que me faça refletir sobre me preocupar mais com minhas pendências do que com o agradecimento do meu amigo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Chisomo

Tentando resumir o MOVE: Quatro países se envolvem diretamente nesse intercâmbio com foco na música. Brasil, Noruega, Malawi e Moçambique. Todos num 'troca-troca' sem fim.
O intercâmbio envolve instituições de ensino musical de cada país. Eu represento o Projeto Guri, e aqui em Moçambique vou trampar na Music Crossroads, junto do Marcelo, brasileiro que está na empreitada comigo, e dos meus amigos malauianos e noruegueses. E é justamente de uma deles que vou falar agora.

Chisomo é a mais nova de nós, talvez a mais nova de todo o MOVE. Tem apenas 18 anos, completos em janeiro. Veio do Malaui, país africano com pouco mais de 16 milhões de habitantes. Faz fronteira com Moçambique, aliás.
Chisomo era a porta voz do Malaui na Noruega, durante as aulas que tivemos antes de partir pros nossos respectivos destinos. Única mulher a representar seu país no MOVE, foi também a única a falar quando perguntada sobre a história do país de origem. Era a única representante da África a chegar pontualmente no horário das aulas. Quando tentávamos dar uma volta em Oslo para comprar uma cerveja ou algum rango, mesmo que não tivesse dinheiro ou disposição, sempre ia conosco. Talvez para se enturmar ou para aproveitar as paisagens, mas ela sempre era a única malauiana que estava entre nós. Seu inglês é perfeito, seu sorriso é lindo e suas danças são engraçadas. Olhar penetrado e voz afiada. Chisomo não é grande só por conta disso.
No Malaui, é a mais velha de três filhas. O pai é sul-africano, e não mora com elas. É uma casa inteiramente feminina. A mãe trabalha e Chisomo, mesmo nova, sempre cuidou das suas irmãs, que ainda são bebês. Todas as noites ela liga para sua mãe perguntando das irmãs, e a mãe dela sempre manda áudios engraçadíssimos pra nós. Mas a sua grandeza vai além disso.
Na volta do mercado, por um erro de cálculo, ela infelizmente ficou com as sacolas mais pesadas para carregar num percurso de aproximadamente 3km até nossa casa. Eu tentei pegá-las da sua mão, e ela não deixou. Eu disse que era pesado, ela disse que sabia, mas ia levar mesmo assim. Ela chegou em casa, visivelmente cansada, e começou a preparar a comida, já que coincidentemente era seu dia de cozinhar. Ela serviu cada prato, para cada pessoa. Eu disse que não precisava, e ela mais uma vez não se importou com minha indagação e repetiu a pergunta: assim está bom de arroz, Renan? Jantamos, e eu estava com aquilo tudo na cabeça. Precisei perguntar: No Brasil não é tão comum uma pessoa servir o prato de outra pessoa... Como é no Malaui? Ela foi categórica: Em casa é assim, e aqui será minha casa. Talvez ela não estivesse afim de contar que isso é normal no Malaui. Não que eu saiba, mas observando Tiyamike, o outro malauiano que mora conosco, é muito fácil deduzir que sim. O cara deixa a louça na mesa, reclama quando a comida tá ruim e recentemente esteve doente e pediu para Chisomo fazer um pouco de comida malauiana para ele se sentir melhor. E ela fez.

Chisomo é uma baita mulher. Mesmo servindo o prato de todos ou fazendo mingau para o Tiya, ela se mostra assim. O feminismo está além disso. Não que eu possa falar com propriedade, mas foi exatamente vendo a Chisomo que passei a notar que isso é lutar. É carregar peso, e mostrar sua cultura, é querer se sentir em casa, é cozinhar bem, é se preocupar com o próximo, é sorrir apesar de estar preocupada com sua família. Chisomo tem 18 anos. Aos 18, ela é o futuro da sua família e da música no seu país.
Chisomo é um mulherão da porra.

domingo, 3 de setembro de 2017

7 dias

A primeira vista, a primeira semana soou turística, a princípio. Deveria ter sido o primeiro contato, talvez o início da minha tentativa de se acostumar com toda essa mudança dentro e fora de mim. Mas não foi o primeiro contato, e sim o primeiro soco. O primeiro dos sete socos que levei a cada dia que eu acordava, e que este final de semana me levaram a nocaute.

No sábado cheguei, depois de uma turbulenta viagem na Ethiopia Airlines. Estou sendo literal quando digo 'turbulenta'. Depois de duas horas de voo, da Etiópia para cá, o avião simplesmente retornou a origem da viagem, alegando "problemas de sistema". WTF! Com que coragem eu entraria no mesmo avião para uma viagem de 5 horas? Foi desesperador,  mal dormi. Li um livro inteiro e a cada mini turbulência eu sentia um carinhoso beijo da morte no meu rosto. Na chegada, não precisei esperar muito tempo para notar o choque. Um extenso relatório, que eu era 'obrigado' a responder. Mais uma forte revista, uma observada acintosa em minha carteira de vacinação (justificável, né) e mais uma entrevista na saída. Entrei num carro com o volante do lado direito, pegamos uma avenida em que o sentido que vai é do lado esquerdo. Me senti andando dentro de um espelho.
Deixamos as malas, fomos jantar e parecia que tinha um pouco de frango naquela porção de pimenta. A primeira noite de (falta de) sono foi regada a Far From Alaska, água, repelente e uma ou outra lágrima. Não de tristeza, jamais. Talvez um choque do primeiro vislumbre, atrelado com um pouco de saudade e entusiasmo.

Acreditei na ilusão de que nos primeiros dias eu iria 'pegar leve'. Sentir aos poucos a mudança, deixar as coisas acontecerem sem pressa. Afinal, serão 10 meses! Pois é, errei feio e rude. Vi uma praia com águas de outro oceano, entrei numa van com 15 lugares com 32 pessoas dentro, fui mal tratado dentro da embaixada do meu próprio país e incrivelmente bem tratado na embaixada do Malawi, comi pizza de rim, brinquei no playground do shopping, recebi festa de boas vindas, toquei jazz numa jam session, toquei pandeiro em outra jam session, dei um boné pra um completo desconhecido, conheci um cara que tentou roubar o tambor que temos em casa e na mesma noite conheci um cara que me falou sobre amor, sexualidade e futebol.
Assustador?
Foi pra isso que vim. Pra me assustar! Pra passar perrengue e pra crescer com isso.
Foram sete dias. Sete socos. Um Renan 7 vezes diferente.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Primeiramente...

#ForaTemer

Segundamente:
Este blog era parte dos meus planos desde a ligação do Projeto Guri, confirmando que eu teria passado nas seletivas. E, graças a Deus e ao wi-fi ruim, na Noruega eu mal tive tempo de ligar o computador. Hoje, depois de tanto tempo (incluindo quase 20 horas de voo), consegui. Comprei um chip com meu novo número moçambicano, um pacote de internet de 5MB por 500 meticais e estou usando o celular como um roteador. Talvez isso esteja consumindo toda minha internet, mas hora ou outra seria preciso. E eu e os meninos contamos com aquela força da JM Norway pra conseguirmos um sinal de wi-fi legal.

Enfim, estou aqui. No país que será minha nova casa pelos próximos dez meses. Um país quente, em clima e recepção. Não vou mentir, não é um paraíso... Não está nem perto disso, na realidade. Mas ninguém disse que seria. E eu também não estou aqui para revolucionar. Sou mais um, como qualquer outro aqui, disposto a aprender e ensinar o pouco que sei. Minha função não é mudar o mundo... Talvez esteja mais ligado a provocar uma pequena mudança em cada um. Isso pode reverberar, ou não. Mas preciso estar ciente da minha posição como receptor. Acredito que apenas sendo o que fui em todos esses 24 anos, incluindo (mais) erros (do que) acertos, naturalmente irei mostrar um pouco da minha cultura e da forma que levo a musica como algo vital. Não foi preciso muito tempo para me sentir musicalmente abrigado. É de se perceber o quanto a técnica e a virtuosidade não são a chave do ensino aqui. As coisas acontecem, no feeling, na unha... e acontecem! É lindo e é muito do que procuro quando toco a minha música. Me lembro até hoje do dia em que a Alessandra, coordenadora do Projeto Guri, perguntou o que eu tinha pra oferecer nesse intercâmbio. Fui sincero, disse que naquela sala de espera haviam músicos muito melhores, mais gabaritados e tecnicamente incomparáveis, mas se eu tinha algo a oferecer, era minha experiência na estrada, minha vivência no sub mundo do underground e minha vontade de fazer acontecer. E estou aqui!
Eu não vim fazer o brasileiro louco do samba. Tá, vou precisar tocar um samba hora ou outra, mas não vou mudar o que sou. Vim mostrar sim, minha cultura, minhas raízes. E elas estão calcadas no rock. Hoje absorvo muito melhor a música brasileira e suas vertentes, até pela minha atual fissura na Tropicália, movimento setentista que veio a me seduzir depois da execução do meu lindo e ultimo projeto antes de sair de Birigui, a Tropicadelia (curtam a page, não custa nada). E hoje, essa mistura de tudo o que sou é o que estou disposto a mostrar e agregar com o novo eu que serei aqui. Não voltarei o mesmo, e é isso mesmo que venho almejando.

Postarei sempre que puder, contando as novidades e tudo o que parecer interessante. Se curtiu, continue acompanhando!