sexta-feira, 25 de maio de 2018

#MozEm50Clicks #44

Os aprovados na primeira seletiva do MOVE se encontrariam na sede do Projeto Guri, em São Paulo. Cheguei seis horas da manhã, a sede mal tinha aberto, e lá já tinha um moleque, todo bem vestido e com cara de sono. Só estávamos eu, ele e o Gabriel, um outro mover, que na real acabou de passar para ir a Noruega (go Valparaíso!). Nós três fomos ao beco do Batman, demos umas voltas, acabamos ficando mais próximos para as outras seletivas, e o resto é história.
O dia da resposta dos selecionados para o intercâmbio era no mesmo dia da estreia do meu espetáculo mais importante. Estava duplamente ansioso e nervoso. Eu já estava na idade limite, se eu não passasse agora, não teria mais chance. No caminho para o teatro o grupo dos movers no whatsapp começou a apitar desenfreadamente. "Fui aprovado, vou pra Noruega", "consegui, vou pro Malawi"... Entre esses, Marcelo. Eu fiz as contas, quase todas vagas já tinham sido preenchidas e ninguém tinha me ligado ainda. Chamei ele no privado. Ele sabia do meu desespero pra passar. "Cara, parabéns! Uma pena que não nos encontraremos...", e ele respondeu "tenha fé, confia no seu trabalho" e cinco minutos depois, recebo a ligação. Comecei a pular na rua, abracei os amigos que estavam comigo, e o chamei de novo. "Passei! Vamos juntos pra Moçambique!" e ele respondeu "Sim, eu já sabia. Eles já tinham me falado... Quis manter a surpresa!". Primeiro, eu tive muita raiva pois passei os minutos mais angustiantes da minha vida. Mas hoje, tudo faz mais sentido. E o resto é história.
Ele nunca tinha andado de avião. Me mandava mensagens todo dia perguntando sobre peso de mala, projetos, o que comprar ou o que fazer. Na Noruega, qualquer paisagem era tema da frase que ele sempre dizia: 'cara, que que a gente tá fazendo aqui?'. Logo em seguida, perdíamos o jogo. (Aliás, quem joga O Jogo, perde aí).
Se emocionou vendo o concerto no palácio do rei, em Oslo. Vendo ele chorando, todo mundo chorou junto.

Chegamos em Moçambique, acabamos não ficando no mesmo quarto. Começamos a fazer comida juntos, mas naturalmente fomos percebendo que temos tempos e gostos diferentes para essas coisas. Ele conta as histórias dos amigos de Pilar do Sul, Cerquilho, Tietê e todas as cidades em volta.
Tivemos momentos memoráveis. Ele tocou no violão do Yamandu Costa, do meu lado. Estavamos tão bêbados que era difícil acreditar que era real. Levamos o Yamandu pro hotel, vimos ele fazer as malas. Dia pra sempre.
Nós acabamos de fazer o nosso melhor concerto aqui, na Fundação Leite Couto. Ele foi o mais aplaudido, ovacionado. Recebeu os aplausos na boa, e agradeceu tocando lindamente. Meses antes, num bar, ele estava discutindo com um rapaz moçambicano que dizia que nós vínhamos ao país para fazer turismo, e que eles não precisam de nós nem da nossa ajuda. Nesse dia, eu o vi chorar. De tristeza, de frustração, de impotência. Alguns meses depois disso, eu vi se espremer no sofá, gritando de dor por causa de uma inédita pedra no rim. Nesse dia, eu o vi chorar. De despesero, de dor, de raiva. E todas essas lágrimas, por todos esses motivos, fizeram muita coisa pra esse cara. Ele participou de uma das maiores e mais antigas bandas de Moçambique. Fez concertos sozinho. Deixou um pouco de lado o violão clássico e estava hoje tocando uma guitarra com distorção. Cresceu como gente, também. Mais paciente, mais calmo, calculista. Aprendeu a comer cebola. Parou de chorar.

Se nossas vidas não tivessem sido forçadas a se cruzar, talvez nós nunca fôssemos amigos. Somos duas pessoas completamente diferentes. Não somos o perfil de amigo que o outro tem. Mas esse é o grande lance. Quem diria que num intercâmbio envolvendo quatro países, eu aprenderia as maiores lições que poderia com um muleque de uma cidade a algumas horas da minha.
Vocês ainda vão ouvir falar de Marcelo Brito por aí. Podem anotar.
E o resto será história


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