Tiya não é o mais atento dos humanos. Na real, ele é bem perdido. Sempre atrasado, desorganizado. É quase um charme, se não irritasse hahaha
Mas isso tudo não tira o mérito que esse guerreiro conseguiu aqui.
Ele passou por muitas dificuldades. Tem lá seus problemas com adaptação e aprendizado. De todos os outros meninos, ele é o único que ainda não conseguiu falar português. O Helder ensinou ele a falar 'puta que pariu', e ele ta adorando dizer isso todo dia. Espero que ele não diga isso na igreja...
Alias, Tiya é muito religioso. Todo domingo, sem falta, as sete da manhã ele abre a cortina (ocasionando uma pequena ensolação nos meus olhos, mas ok), coloca a camisa, o terno, e vai para o culto. Ele sempre foi bastante fiel, mas depois que ele acabou perdendo a mãe enquanto esteve aqui, se tornou ainda mais crente nas suas próprias crenças. Foi a primeira vez que um MOVER perdeu os pais enquanto estava no intercâmbio. Ele precisou voltar para casa, acompanhou o velório, que aconteceu exatamente á vespera de natal, e retornou depois do ano novo. Após isso, ele voltou muito mais leve. Parece que, apesar do peso de ter que retornar não por um motivo bom, rever o Malawi um pouco deu uma espécie de refrescada na cabeça dele. Não era mais o menino perdido, que não saía do quarto porque tinha medo de não saber se comunicar. Hoje ele tem a banda da igreja, pega o ônibus e só volta de noite, teve até uma namorada. Foi meio tarde pra descobrir tudo isso? Talvez. Mas o Tiya é a prova viva de que tudo tem seu tempo, dentro do tempo pessoal de cada um. E que também é na merda que aprendemos as coisas boas.
Ele volta sem falar português, mas isso é o de menos. Crescimento intelectual tem muito mais a ver com o crescimento pessoal. E nisso, não posso negar. O Tiya cresceu, e muito.
