A grande responsável por toda essa aventura é a JM Norway (clique aqui para saber mais sobre), e os caras criaram um blog para todos os MOVERs depositarem suas experiências. Nesse link aqui você pode conferir os posts dos outros MOVERs, até mesmo os de edições anteriores (estão em inglês, mas da pra fazer uma forcinha e tentar entender). Sou o segundo a postar no blog, então não tenho ainda como exprimir tudo o que realmente vou querer falar mais a frente. Então, tentei explicar mais sobre o social como um todo.
Segue o texto, espero que gostem!
Segue o texto, espero que gostem!
'No Brasil as pessoas costumam generalizar o continente. Costumamos
usar “África” para retratar todos os países que consistem de fato o território.
E antes de sair de casa, os noticiários, os amigos, os jornais locais, todos
diziam que “o Renan estava indo para a África”. E o pior é que eu mesmo não
percebia o erro e deixei passar, mesmo com os MOVER’s anteriores mostrando toda
a incrível experiência que tiveram no Malawi, desde a discrepância até a maior
riqueza. E hoje, não só pela experiência louca que tenho vivido aqui, mas
também por perceber o quanto eles ficam chateados com a forma errada que nos
referimos, vejo que precisamos parar com isso o quanto antes.
Não nos culpo. O que chega pra nós, nas mídias, é muito parecido com a nossa atual
opinião. O que incomoda é a falta de vontade de mudá-la, pesquisar e tentar
procurar o real motivo das coisas realmente acontecerem e porque acontecem
aqui.
É pobre? Sim. Mas há a mesma desigualdade que estamos acostumados a ver em
qualquer país de primeiro ou segundo mundo. O bairro que moro tem lindos
prédios á direita e algumas casas mal construídas e apertadas a esquerda. Perto
da praia, então... Mansões e hotéis com vista para o oceano. Enquanto isso, lá
embaixo, trabalhadores recebem grandes cargas de insolação tentando vender
qualquer coisa que tem em mãos para sobreviver. Nada de diferente até aqui,
certo?
É subdesenvolvido? Talvez. Em horários de pico, filas de carros se formam nas
ruas. E não são carros populares, não. Caminhonetes importadas em quase toda
esquina (até pelo fato de não haver uma fabricação automobilística própria no
país). Nas grandes avenidas, bares requintados que vendem um copo aguado de
chopp pelo triplo do preço que você pode comprar uma garrafa de 600ml da mesma
cerveja em um bar menos badalado. E o estilo dos moçambicanos geralmente
alterna entre as clássicas e culturais roupas de capulana, tecido local, muito
colorido e cheio de vida, e também entre as já conhecidas roupas badaladas e de
marcas mais populares e aparentemente caras. Nada de tão diferente aqui,
também.
Tem fome? Sim. Mas tem crianças pedindo moedas na calçada de restaurantes finos
que vendem frango a preço de carret. Redes de fast food tomam o centro,
pizzarias são sucesso e os preços, pros padrões locais, não são tão baratos
quanto pode parecer. No mercado, produtos importados tomam as prateleiras e
vegetais e frutas estão sempre frescos e bonitos, e por sua vez, não caros se
comparados a proteínas. Valorizando a produção local e importando o necessário,
dando uma ajuda na economia e no bolso do trabalhador. Alguma diferença?
Tem cultura? Acredite, sede de cultura você não sentirá aqui. Essa na verdade é
a mais burra das perguntas, já que muito da cultura de muitos países, como o
próprio Brasil, é importação da “África”. Desde as roupas, as danças, a música.
Cultura é a grande responsável por colocar sorrisos nas bocas tristes que vemos
em fotos na televisão ou em outdoors nas ruas de nossos países. Eles tem seu
estilo de música próprio, sua forma tradicional de dançar, seu artesanato feito
de forma não usual e mesmo assim tão lindo quanto qualquer artista europeu que
expõem no Louvre. Além de ver os artistas se disporem a estender um tecido no chão,
exporem sua arte e barganhar com você até o ultimo segundo por um preço bom
para os dois lados. Diferente, pra você?
Moçambique existe. É um país que faz parte da tão grande
“África”.
África que tem Etiópia, que tem sua própria linha aérea, que distribui voos por
todo continente e parte da Europa, além de ser um dos países mais antigos do
planeta.
África que tem Angola, que tem ritmos tocados em rádios pelo mundo a fora, um
deles que inclusive inspirou o que hoje no Brasil é o ‘samba’ e que, vejam só,
a partir do Brasil tomou o resto dos continentes.
África que tem Egito, um dos maiores pontos turísticos não só para
historiadores, mas para todo um povo que sabe apreciar uma cultura tão ímpar,
além de já conseguir sua sonhada classificação para a Copa do Mundo de 2018, na
Russia, nas costas de Salah, atual estrela mundial do futebol e que joga em uma
das mais disputadas ligas.
África que tem Somália, que recentemente sofreu o segundo maior atentado
terrorista da história, atrás apenas do trágico acidente com as Torres Gêmeas,
nos Estados Unidos. O numero de mortos aumenta a cada dia e já passa de 600,
sem contar os feridos.
África que tem Moçambique. Um país que tem turismo, como praias lindas e de
correntes tão quentes quanto seu clima. Tem cultura, como pubs e bares com
música ao vivo e dias fixos com ‘jam sessions’ para todos conseguirem ter um
bom espaço para mostrar o seu talento. Tem riquezas, como a literatura ou o
cinema, que são atributos moçambicanos conhecidos internacionalmente. Tem boas
pessoas, como um senhor que viu meu dinheiro cair do bolso e correu atrás de
mim para devolver... É como qualquer outro grande país europeu ou americano. Também
é um país que tem seus atentados políticos, como o presidente de Nampula, que
foi assassinado recentemente por interesses mesquinhos. Tem seus problemas
sociais, como a polícia ineficiente que nos assusta mais do que os próprios
criminosos. Tem machismo, como as ‘brincadeiras’ que temos que ouvir quando
alguma mulher passa perto de um rapaz assanhado... Coisas assim acontecem como
em qualquer outro grande país europeu e americano, também. Um país que tem seus
problemas. E tem suas virtudes. É país como qualquer outro. Mas por estar na
“África”, ele vira a “África”. E por ser a “África”, ninguém liga.
Mia Couto, escritor moçambicano e conhecido em todo o mundo, disse em uma obra:
“Para que as luzes do outro sejam percebidas por mim, devo por bem apagar as
minhas, no sentido de me tornar disponível para o outro”. Não podemos dizer estarmos
dispostos a conhecer a “África” se não apagarmos nossa deturpada visão e não
estarmos preparados para acender as coisas que sempre estiveram na nossa
frente, e não quisemos enxergar.'
