terça-feira, 24 de outubro de 2017

"África"

A grande responsável por toda essa aventura é a JM Norway (clique aqui para saber mais sobre), e os caras criaram um blog para todos os MOVERs depositarem suas experiências. Nesse link aqui você pode conferir os posts dos outros MOVERs, até mesmo os de edições anteriores (estão em inglês, mas da pra fazer uma forcinha e tentar entender). Sou o segundo a postar no blog, então não tenho ainda como exprimir tudo o que realmente vou querer falar mais a frente. Então, tentei explicar mais sobre o social como um todo.
Segue o texto, espero que gostem!


'No Brasil as pessoas costumam generalizar o continente. Costumamos usar “África” para retratar todos os países que consistem de fato o território. E antes de sair de casa, os noticiários, os amigos, os jornais locais, todos diziam que “o Renan estava indo para a África”. E o pior é que eu mesmo não percebia o erro e deixei passar, mesmo com os MOVER’s anteriores mostrando toda a incrível experiência que tiveram no Malawi, desde a discrepância até a maior riqueza. E hoje, não só pela experiência louca que tenho vivido aqui, mas também por perceber o quanto eles ficam chateados com a forma errada que nos referimos, vejo que precisamos parar com isso o quanto antes.
Não nos culpo. O que chega pra nós, nas mídias, é muito parecido com a nossa atual opinião. O que incomoda é a falta de vontade de mudá-la, pesquisar e tentar procurar o real motivo das coisas realmente acontecerem e porque acontecem aqui. 

É pobre? Sim. Mas há a mesma desigualdade que estamos acostumados a ver em qualquer país de primeiro ou segundo mundo. O bairro que moro tem lindos prédios á direita e algumas casas mal construídas e apertadas a esquerda. Perto da praia, então... Mansões e hotéis com vista para o oceano. Enquanto isso, lá embaixo, trabalhadores recebem grandes cargas de insolação tentando vender qualquer coisa que tem em mãos para sobreviver. Nada de diferente até aqui, certo?

É subdesenvolvido? Talvez. Em horários de pico, filas de carros se formam nas ruas. E não são carros populares, não. Caminhonetes importadas em quase toda esquina (até pelo fato de não haver uma fabricação automobilística própria no país). Nas grandes avenidas, bares requintados que vendem um copo aguado de chopp pelo triplo do preço que você pode comprar uma garrafa de 600ml da mesma cerveja em um bar menos badalado. E o estilo dos moçambicanos geralmente alterna entre as clássicas e culturais roupas de capulana, tecido local, muito colorido e cheio de vida, e também entre as já conhecidas roupas badaladas e de marcas mais populares e aparentemente caras. Nada de tão diferente aqui, também.

Tem fome? Sim. Mas tem crianças pedindo moedas na calçada de restaurantes finos que vendem frango a preço de carret. Redes de fast food tomam o centro, pizzarias são sucesso e os preços, pros padrões locais, não são tão baratos quanto pode parecer. No mercado, produtos importados tomam as prateleiras e vegetais e frutas estão sempre frescos e bonitos, e por sua vez, não caros se comparados a proteínas. Valorizando a produção local e importando o necessário, dando uma ajuda na economia e no bolso do trabalhador. Alguma diferença?

Tem cultura? Acredite, sede de cultura você não sentirá aqui. Essa na verdade é a mais burra das perguntas, já que muito da cultura de muitos países, como o próprio Brasil, é importação da “África”. Desde as roupas, as danças, a música. Cultura é a grande responsável por colocar sorrisos nas bocas tristes que vemos em fotos na televisão ou em outdoors nas ruas de nossos países. Eles tem seu estilo de música próprio, sua forma tradicional de dançar, seu artesanato feito de forma não usual e mesmo assim tão lindo quanto qualquer artista europeu que expõem no Louvre. Além de ver os artistas se disporem a estender um tecido no chão, exporem sua arte e barganhar com você até o ultimo segundo por um preço bom para os dois lados. Diferente, pra você?


Moçambique existe. É um país que faz parte da tão grande “África”.
África que tem Etiópia, que tem sua própria linha aérea, que distribui voos por todo continente e parte da Europa, além de ser um dos países mais antigos do planeta.
África que tem Angola, que tem ritmos tocados em rádios pelo mundo a fora, um deles que inclusive inspirou o que hoje no Brasil é o ‘samba’ e que, vejam só, a partir do Brasil tomou o resto dos continentes.
África que tem Egito, um dos maiores pontos turísticos não só para historiadores, mas para todo um povo que sabe apreciar uma cultura tão ímpar, além de já conseguir sua sonhada classificação para a Copa do Mundo de 2018, na Russia, nas costas de Salah, atual estrela mundial do futebol e que joga em uma das mais disputadas ligas.
África que tem Somália, que recentemente sofreu o segundo maior atentado terrorista da história, atrás apenas do trágico acidente com as Torres Gêmeas, nos Estados Unidos. O numero de mortos aumenta a cada dia e já passa de 600, sem contar os feridos.
África que tem Moçambique. Um país que tem turismo, como praias lindas e de correntes tão quentes quanto seu clima. Tem cultura, como pubs e bares com música ao vivo e dias fixos com ‘jam sessions’ para todos conseguirem ter um bom espaço para mostrar o seu talento. Tem riquezas, como a literatura ou o cinema, que são atributos moçambicanos conhecidos internacionalmente. Tem boas pessoas, como um senhor que viu meu dinheiro cair do bolso e correu atrás de mim para devolver... É como qualquer outro grande país europeu ou americano. Também é um país que tem seus atentados políticos, como o presidente de Nampula, que foi assassinado recentemente por interesses mesquinhos. Tem seus problemas sociais, como a polícia ineficiente que nos assusta mais do que os próprios criminosos. Tem machismo, como as ‘brincadeiras’ que temos que ouvir quando alguma mulher passa perto de um rapaz assanhado... Coisas assim acontecem como em qualquer outro grande país europeu e americano, também. Um país que tem seus problemas. E tem suas virtudes. É país como qualquer outro. Mas por estar na “África”, ele vira a “África”. E por ser a “África”, ninguém liga.

Mia Couto, escritor moçambicano e conhecido em todo o mundo, disse em uma obra: “Para que as luzes do outro sejam percebidas por mim, devo por bem apagar as minhas, no sentido de me tornar disponível para o outro”. Não podemos dizer estarmos dispostos a conhecer a “África” se não apagarmos nossa deturpada visão e não estarmos preparados para acender as coisas que sempre estiveram na nossa frente, e não quisemos enxergar.'

sábado, 14 de outubro de 2017

O que eu tenho ouvido

Semana que vem, mais precisamente dia 26, será o segundo mesversário da minha vida em Moçambique. Já chegamos num ponto onde nem tudo é uma novidade tão grande, e as pernas já andam sozinhas por alguns caminhos. A grande semelhança ao Brasil é o fato do dinheiro acabar antes do dia de receber. De resto, estamos nos redescobrindo e, consequentemente, descobrindo outras coisas fora de nós. Mas essa frase poética não tem nenhum outro cunho a não ser o de começar a falar de um simples objeto que salva minha  vida diariamente, e pode salvar a sua: fones de ouvido. Unidos num combo "celular com Spotify + um pacote básico de internet", temos mais uns dias úteis de vida. Nos momentos de bad, costumo fazer uso do meu kit de emergência, deitar na cama, me cobrir e ligar o ventilador (isso nunca fez sentido, mas faço, não nego) e perco horas ouvindo músicas tristes, pesadas, de auto ajuda, de auto depreciação, que me instigam a compor ou me deixam com vontade de nunca mais tocar um violão. Essa mistura de sentimentos faz parte do pacote, aliás. Vim falar então, um pouco do que tem tocado nos meus fones.

Não que Moçambique não seja rica musicalmente, jamais diria isso. Aqui é a verdadeira fonte do afrojazz, quizomba e da já clássica e tradicional marrabenta: a musica folclórica, que tem danças e letras populares. Seria como o samba é pra nós. Eu venho estudando essa riqueza musical, mas ainda não sei o suficiente para recomendar nada. Por isso, minhas playlists seguem com muito de uma fase que não sei porque está me consumindo desde antes da viagem, que é o tal 'novo rock nacional' repleto de influências tropicais. Decidi escrever sobre essas bandas que tanto me ajudam, indiretamente.


Em todas as horas que estive no avião, não só uma música, mas um album inteiro figurou no meu celular: Unlikely, do Far From Alaska. A galera de Natal que faz um rock potente. O ultimo trampo deles está fenomenal, e vale a escuta. Far From Alaska que faz parte da mesma produtora de outras bandas que nunca foram segredo pra ninguém a minha eterna admiração: Supercombo, INKY, Ego Kill Talent, Medulla, Scalene, entre outros (essas três ultimas com trabalhos fantásticos lançados ainda esse ano). Todos figuram em peso nos fones, além das novidades não tão novas, mas não menos quentes, como o ultimo álbum do Zimbra, ou a Fresno, que me fez represtar a atenção neles depois de tanto tempo.

Mas, chegamos as duas mais importantes desses meses, e que merecem um único paragrafo de destaque: O Terno e Maglore.
"Melhor do que parece" claramente é uma das maiores obras da nova música brasileira, e não digo apenas no rock. Sou admirador dos caras desde 2012, no primeiro album, em que explodiam juventude e lembravam Beatles, Stones e Mutantes. E, incrivelmente, tais como os exemplos citados, no último álbum a evolução é surpreendentemente visível e audível. Vale a audição do álbum inteiro com devida atenção.
E bem, o que dizer do Maglore? A mais grata descoberta desse ano, indicação do amigo e também enciclopédia musical (e futuro papai) Eduardo Martinez. Estava já aqui quando os caras lançaram o "Todas as bandeiras", o álbum que, literalmente, me faz levantar da cama. Letras simples, melodias complexas, tudo o que talvez seja providencial na musica atual. A escuta não só do novo álbum, mas dos antigos registros precisa fazer parte da sua rotina.

Bem, fiz uma playlist no meu perfil no Spotify com um resumo de tudo o que tenho escutado. Se você ainda não tem uma conta no Spotify, está perdendo tempo, pois é maravilhoso. Enfim, espero que curtam e que pelo menos uma dessas músicas possa fazer o dia de algum de vocês melhor.


sábado, 7 de outubro de 2017

Relatório #1 - Segunda Parte

Depois do pre course, onde estavam confinados apenas os MOVERs, fomos ao youth camp, um lugar com, literalmente, gente do mundo inteiro que ia para o mundo inteiro. Foram experiências incríveis, que eu mal consegui traduzir em apenas dois parágrafos do relatório. Mas, espero que gostem do texto!

"Um pouco desesperançosos por conta dos problemas do pre course, fomos ao youth camp. Apesar disso, foi difícil se despedir das boas amizades que fizemos e ficariam em Oslo, como as Ingrids, a Sandra, o Klaus e a própria Kina, que vale lembrar, sempre nos deu toda assistência possível, e se mostrou extremamente orgulhosa com nossas apresentações. E bem, se já achávamos Voksenasen um hotel extremamente foda, fica fácil imaginar a cara de espanto que fizemos quando chegamos aos aposentos do youth camp. Com vista pro lago e tudo mais! Mas novamente, mal tivemos tempo de descobrir como o chuveiro funcionava e já tínhamos que aparecer nas reuniões, conferências e palestras que aconteciam TODO TEMPO. E como se não bastasse, todas as noites precisávamos estar em reuniões dos grupos que foram formados por pessoas de todos os programas de intercâmbio: mais uma chance de desafiar nossa capacidade de improvisar o inglês. Esta parte foi triste. Eu e Marcelo estávamos no mesmo grupo e não conseguimos imprimir muito nossas ideias. Acabamos usando nossos violões e tocando uma música de fundo para a apresentação final. Mas ok, até então. O conforto eram os outros brasileiros, dos outros programas, que acabamos conhecendo e tendo razoável contato. Um deles, o Carlos, até promoveu um mergulho no lago do hotel, na ultima noite, que por sinal estava bem fria. Só eu e Igor topamos a aventura, e saímos sem sentir os pés. Aventuras são pra isso.

Ah! Vale lembrar que no youth camp tivemos uma tradutora. A Liv, uma das MOVERs que veio para Moçambique, e acabou fluente na língua. Além de ser bem fofa, ajudou muito e se tornou uma grande amiga, que aliás, promete uma visita pra cá em breve. E essa ajuda foi de suma importância para absorvermos o pouco que dava para realmente entender. Teorias interessantíssimas, sobre a maioria da riqueza da humanidade estar dividida em apenas 5% da população, ou sobre a visão extremamente estereotipada que as pessoas tem de determinados países (algumas corretas, sobre a corrupção no Brasil, por exemplo) e na palestra sobre feminismo mostrar que, ao menos na Europa, os homens podem ser considerados feministas também (???). Ao final de tudo, a apresentação dos grupos foi emocionante, o dia após foi de despedidas, e ver o Igor e a Cintia entrarem no ônibus rumo a Oslo foi de partir o coração. No aeroporto, ainda encontramos a Assa, voltando para casa depois de uma turnê por bares noruegueses, e ela foi bastante solicita em nos ajudar com as coisas na viagem. Descemos, já fomos abordados por 3 ou 4 pessoas truculentas e mal educadas, mais por força do hábito do que por vontade própria. Encontramos a Tapiwa e enfim conhecemos os aposentos e o tão aclamado frango apimentado."

Obrigado por ler!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Relatório #1 - Primeira parte


Como eu (acho que) já havia dito, todo começo de mês precisamos mandar um relatório para a galera do Projeto Guri, explicando como foram as experiências no mês anterior. E bem, eu acho uma injustiça danada não compartilhar com vocês algumas dessas coisas.
Pra não ficar tão longo, vou dividir em partes. Nessa primeira parte, eu falei sobre o pre course, que é o período em que estudamos na Noruega, para virmos mais preparados pra cá.

Depois de uma viagem cansativa, uma escala tranquila e uma ou outra amizade interessante no avião, chegamos na grande Oslo. Se o aeroporto já impressionava, dava pra imaginar como seria o restante da estadia. Desde a recepção, com o ex intercambiário Klaus, até a compra dos bilhetes para o trem, tudo muito moderno, educado e organizado. Acontece que o primeiro grande desafio não demoraria muito a acontecer... Minha mala caiu, no meio do caminho. Os meninos correram para o trem, eu fiquei pra trás. Vi as portas fecharem na minha frente, juntamente com as minhas esperanças de sobreviver. Mentira, eu estava tranquilo. Sentei no banco e esperei. Imaginei que alguém voltaria, hora ou outra. Um wifi mágico apareceu no meu celular, e junto dele, uma mensagem do Marcelo me recomendando a pegar sozinho o próximo trem, pois eles estariam a minha espera. Desconfiado e sem saber o que viria, entrei. E na real, estar sozinho naquele momento foi um acidente que veio a calhar. Ver a paisagem na janela e ter tempo de refletir sobre tudo o que tem acontecido, foi mágico. Depois que os encontrei, o resto foi fácil. Ou eu achei que seria.

Todo mundo pareceu bastante interessante, a principio. Não tivemos muito tempo para apresentações antes do início do pré course. Mas o começo de tudo foi realmente muito mais complicado do que já seria, pela falta de prática no inglês. Eu, que era um dos mais preocupados com minha pronúncia, também era um dos que se comunicava menos pior. E mesmo assim, foi completamente difícil entender muitas das coisas que aconteciam. Mesmo com os tradutores que vieram depois. De qualquer forma, o que deu para ser absorvido, foi. E as amizades começaram a florescer (e as ressalvas com as pessoas, também). Como o Valé, que se perdeu em Oslo por displicência e desesperou todo mundo, ou um ou outro norueguês que tinha um comportamento mais ríspido e que não agradavam muito. De qualquer forma, muito aconteceu. Desde aulas muito interessantes no pré course, até um concerto fantástico da Orquestra Filarmônica de Oslo, um show intimistamente delicioso da ex MOVER moçambicana Assa Matusse, uma apresentação incrível que fizemos com composições próprias para um publico espontâneo e aconchegante no ponto mais alto da Noruega, e descer de lá de tirolesa e fazendo samba pros outros que chegavam. Entre grandes e pequenas coisas. Entre uma cerveja, um big Mac, um café da manhã, uma jam, uma volta no parque, tudo parecia mágico. Até o cansaço que já estava imbatível e o monte infinito de roupas sujas no quarto não era tanto problema, afinal. Até um bar com uma banda tocando a nata da música brasileira no centro da cidade nós conseguimos encontrar. Só estava difícil encontrar mesmo a famigerada ‘paz’. Por vezes nós, que não falávamos inglês, nos víamos sozinhos. Claro que hoje, vendo tudo o que aconteceu em Voksenasen, sentimos uma falta danada de toda aquela união e espírito de equipe, mas no momento, tudo o que queríamos era achar alguém pra conversar um pouco, e que não fizesse a cara de impaciência que os noruegueses faziam quando tentávamos abrir comunicação. De qualquer forma, não da pra dizer outra coisa sobre esse primeiro período que não seja “enriquecedor”. A Noruega nos acolheu, de fato. Ex MOVERs sempre nos tratavam com muito carinho, quando nos encontravam. Todos apresentavam seus lindos e bem sucedidos projetos, que de certa forma também aumentavam a nossa responsabilidade como pioneiros aqui em Moçambique. Mas eu não imaginava que aplica-los aqui seria o meu maior desafio. 

Na segunda parte, falarei do Youth Camp, um lugar cheio de gente de todos os lugares do mundo, cheio de aprendizado e belezas naturais.
Até!