Mudei o plano pra colocar essa hoje. Ontem foi uma noite maluca.
Lembram do Clube Marítimo? Aquele da foto de ontem? Na última noite aconteceu o concerto de Chico Antônio, um cantor folclórico de Moçambique que fez muito sucesso na década de 90 e que antes de conseguir o estrelato na música era um dos muitos moradores de rua de Moçambique. O Helder, amigo que já citei por aqui, faz a técnica de som dos concertos do Marítimo. Eu, sentindo falta do backstage, me ofereci para ajudar e aproveitar pra conhecer melhor a música, e quem sabe, a pessoa de Chico Antônio e sua fantástica banda.
Chegamos cedo e montamos as coisas. Havia um kit de bateria, pela metade, que aparentemente seria o usado no concerto. Os músicos tinham se atrasado e pra tentar otimizar o tempo eu ajeitei a bateria no canto certo, 'pré montei' e esperamos os músicos chegarem. Um a um, foram encontrando seu lugar no palco e passando o som. Chico foi o último a chegar, mas não era para ter sido assim. O show estava previsto para começar as oito e meia. Eram oito horas e o banco da bateria ainda estava vazio. Oito e meia, o celular toca e chega a informação: É oficial, o baterista não vem. Helder, em um reflexo quase que instantâneo, olhou pra mim. E a minha resposta foi tão imediata que veio antes mesmo da pergunta: "Não!". Mas não tive tempo de ficar nervoso pois em segundos ele já tinha convencido até o dono do restaurante de que seria uma boa opção eu tocar no lugar do baterista faltoso. Quando eu vi que não conseguiria fugir dessa situação, pedi mais uma caneca de cerveja. Ia ter que ser, não tinha jeito. E o Chico, super fofo, conversando com os outros pra cortar do set as músicas que eram complexas ou tinham muitas paradas. Mas isso não deixava de me assustar. Não era uma banda de garagem. Era um cara da música vanguardista no país. E além dessa pressão toda, a bateria estava pela metade. Eram todas as adversidades possíveis dentro do mesmo metro quadrado.
O baixista, que estava do meu lado, ia me dando as dicas.
As primeiras músicas eram baladas, alguns reggaes, até então eu estava em casa. Depois da metade, ele me olhou e disse: 'A próxima é um zouk'. Meu cérebro automaticamente entrou em um processo de auto procura dentro dos meus resquícios de memória musical para tentar achar alguma referência mínima de como se toca zouk. Eu não sabia nem que zouk se escrevia 'zouk' e não 'zuque'. Estiquei um pouco a cabeça, olhei pro percussionista, ergui os ombos e disse: 'Fudeu'. Ele sorriu, acho que nem entendeu. E disse: 'Me segue'. E foi.
Agora meu cérebro tem uma memória mais recente sobre zouk arquivada.
Enfim, aconteceu. Eu não posso falar que foi bom, porque não conhecia as músicas para ter o parâmetro. Mas me serviu de consolo nenhum ouvinte me olhar de cara feia. E o Chico pegou meu telefone! Ou ele gostou do meu trampo, ou quer ter um novo amigo. Pra qualquer um dos pontos, infelizmente, não tenho mais tanto tempo aqui. A partir de hoje, temos 39 dias em terra africana. Mas ontem, de todos os dias aqui, este foi de longe o mais maluco e o que eu mais fiquei nervoso. Consequentemente, um dos mais gratificantes.
Obrigado Chico Antônio, pela confiança que nem eu mesmo tenho no meu trampo, e Helder, por ter sido chato e insistido para que eu tocasse. Além da Eliana e da Kristine, que além do apoio moral, tiraram fotos como essa de hoje. Não é a mais profissional, mas é a que melhor traduz o concerto: Todo mundo feliz e eu com os olhos grudados no Chico enquanto ele me dar as coordenadas.