Essa semana estreou Pantera Negra, um dos filmes mais aguardados do ano e a porta de entrada para Vingadores: Guerra Infinita.
Mas, muito mais que só mais um filme de heróis (ou mais do que um filme de um herói NEGRO), Pantera Negra quebra tantos paradigmas que quase não cabem numa lista.
Hoje, coincidentemente antes de ir ao cinema, me deparei com um 'meme' na internet, que mostravam outros heróis negros que surgiram antes do rei T'Challa, tentando injustificar a alcunha de 'primeiro herói negro do cinema'. Na mesma imagem havia Dom Cheadle como o Maquina de Combate, em Homem de Ferro, e Anthony Mackie, o Falcão que surgiu em Capitão América: Soldado Invernal. Não é preciso ser nenhum expert em HQs para saber que nos filmes, esses caras não são nada mais que sidekicks, os famosos 'assistentes'. Basta perguntar a qualquer pessoa que não esteja antenada no universo expandido da Marvel, sobre o Maquina de Combate, por exemplo. É fato: Ninguém sabe quem eles são, porque eles não tem protagonismo! Pois sempre estão atrás do herói branco cheio da grana, ou do outro branco sarado vestido de bandeira americana.
Ok, em 98 tivemos o Blade de Wesley Snipes. Que nem considerado herói é, mas vale a ressalva.
E mesmo que você queira argumentar sobre tantos e tantos outros possíveis negros em pseudo filmes de heróis, eu te peço encarecidamente que assista o filme e esteja disposto a entender o porque afirmo com tanta seriedade sobre o Pantera Negra ser o herói negro definitivo e que o cinema merece ter.
Como se não bastasse ser um dos pouquíssimos filmes heroicos que se passam fora do continente americano, tratar a África com tanto cuidado e sem ofensividade é algo digno de aplausos. E foi justamente isso que aconteceu.
Como eu imagino que vocês saibam, moro em Moçambique. Um dos maiores e mais belos países da África. Que assim como todo o resto do continente, preza muito pelas suas culturas e raízes e, infelizmente, se sentem pouco representados. Se sentem esquecidos, estereotipados, alguns chegam até a se convencer de que a imagem africana que é vendida fora daqui seja real, indo contra os seus próprios princípios.
E bem, depois dos créditos de Pantera Negra, a sala inteira se rendeu e aplaudiu. Um aplauso que mais parecia um respiro depois do afogamento. Um pouco de alívio, um pouco de gratidão. Um pouco do que esse filme merece, por ter mostrado pro resto do mundo um pouco do que também é a África. E não é a África generalizada, como um país, com uma cultura. São as referências ao Quênia, Gana, África do Sul e Arabia nos figurinos esteticamente funcionais e maravilhosamente lindos da vencedora do Oscar, Ruth E. Carter. São os ritmos e instrumentos nativos de São Tomé e Príncipe, Costa do Marfim e até mesmo Moçambique, na trilha sonora que eu não consigo dar outro nome que não seja MAGISTRAL, fruto de uma parceria que não teria como dar errado: o premiado Ludwig Goransson no orquestral pesado, e o explosivo Kendrick Lamar nos traps e beats africanos carregados de mensagem, que já alcançou o topo do iTunes e dando uma expandida no alcance da música afro ao redor do planeta.
As críticas funcionam. E vão muito além da representatividade afro.
Existe um cuidado pontual para usar os próprios estereótipos para mostrar o quanto uma África pode ser high tech sem perder as raízes. E um tato tão sutil para conseguir criticar o extremismo e a monoatitude que te deixa até confuso sobre torcer para o vilão ou pro mocinho.
Vilão esse que vale uma menção especial. O que o Michael B. Jordan faz nesse filme é algo fora do padrão de atuação que se vê por ai. Imprimindo toda sua ganância e vontade na atuação, além de ser um dos poucos vilões com uma motivação tão justa que te faça, bem no fundo, torcer por ele.
Como se já não bastasse, o que começa como uma pincelada e termina com uma cena de arrancar lágrimas dos olhos de qualquer pessoa que tenha o mínimo de compaixão pela causa: O feminino impera! Se quiser duvidar, tente fazer algum comentário machista perto de uma Dora Milaje.
Não para por ai. Referências históricas que vão de Trump a Martin Luther King. De Malcom X a Barack Obama. Dos navios negreiros ao julgamento de Rodney King.
Ryan Coogler não é Grifinória, mas não para de ganhar pontos por essa direção. Isso sem citar as atuações cruciais de Chadwick Boseman, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Martin Freeman, Andy Serkis e, do meu destaque pessoal, Letitia Wright: a irmã tagarela e inteligentíssima do Pantera, que já mostrou um pouco da sua raiva e sede de justiça no episódio Black Museum, na quarta temporada de Black Mirror.
É político, é cuidadoso, é bem fundamentado, é bem orquestrado. Roteiro, fotografia, efeitos especiais, atuações... É um mundo! A Marvel criou um novo mundo!
Um mundo que já existe faz um tempo. E se chama África.
Pantera Negra está nos cinemas de todo país.



