sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pantera Negra: O primeiro herói negro do cinema?

Essa semana estreou Pantera Negra, um dos filmes mais aguardados do ano e a porta de entrada para Vingadores: Guerra Infinita.
Mas, muito mais que só mais um filme de heróis (ou mais do que um filme de um herói NEGRO), Pantera Negra quebra tantos paradigmas que quase não cabem numa lista.


Hoje, coincidentemente antes de ir ao cinema, me deparei com um 'meme' na internet, que mostravam outros heróis negros que surgiram antes do rei T'Challa, tentando injustificar a alcunha de 'primeiro herói negro do cinema'. Na mesma imagem havia Dom Cheadle como o Maquina de Combate, em Homem de Ferro, e Anthony Mackie, o Falcão que surgiu em Capitão América: Soldado Invernal. Não é preciso ser nenhum expert em HQs para saber que nos filmes, esses caras não são nada mais que sidekicks, os famosos 'assistentes'. Basta perguntar a qualquer pessoa que não esteja antenada no universo expandido da Marvel, sobre o Maquina de Combate, por exemplo. É fato: Ninguém sabe quem eles são, porque eles não tem protagonismo! Pois sempre estão atrás do herói branco cheio da grana, ou do outro branco sarado vestido de bandeira americana.
Ok, em 98 tivemos o Blade de Wesley Snipes. Que nem considerado herói é, mas vale a ressalva.
E mesmo que você queira argumentar sobre tantos e tantos outros possíveis negros em pseudo filmes de heróis, eu te peço encarecidamente que assista o filme e esteja disposto a entender o porque afirmo com tanta seriedade sobre o Pantera Negra ser o herói negro definitivo e que o cinema merece ter.

Como se não bastasse ser um dos pouquíssimos filmes heroicos que se passam fora do continente americano, tratar a África com tanto cuidado e sem ofensividade é algo digno de aplausos. E foi justamente isso que aconteceu.
Como eu imagino que vocês saibam, moro em Moçambique. Um dos maiores e mais belos países da África. Que assim como todo o resto do continente, preza muito pelas suas culturas e raízes e, infelizmente, se sentem pouco representados. Se sentem esquecidos, estereotipados, alguns chegam até a se convencer de que a imagem africana que é vendida fora daqui seja real, indo contra os seus próprios princípios. 
E bem, depois dos créditos de Pantera Negra, a sala inteira se rendeu e aplaudiu. Um aplauso que mais parecia um respiro depois do afogamento. Um pouco de alívio, um pouco de gratidão. Um pouco do que esse filme merece, por ter mostrado pro resto do mundo um pouco do que também é a África. E não é a África generalizada, como um país, com uma cultura. São as referências ao Quênia, Gana, África do Sul e Arabia nos figurinos esteticamente funcionais e maravilhosamente lindos da vencedora do Oscar, Ruth E. Carter. São os ritmos e instrumentos nativos de São Tomé e Príncipe, Costa do Marfim e até mesmo Moçambique, na trilha sonora que eu não consigo dar outro nome que não seja MAGISTRAL, fruto de uma parceria que não teria como dar errado: o premiado Ludwig Goransson no orquestral pesado, e o explosivo Kendrick Lamar nos traps e beats africanos carregados de mensagem, que já alcançou o topo do iTunes e dando uma expandida no alcance da música afro ao redor do planeta.

As críticas funcionam. E vão muito além da representatividade afro.
Existe um cuidado pontual para usar os próprios estereótipos para mostrar o quanto uma África pode ser high tech sem perder as raízes. E um tato tão sutil para conseguir criticar o extremismo e a monoatitude que te deixa até confuso sobre torcer para o vilão ou pro mocinho.
Vilão esse que vale uma menção especial. O que o Michael B. Jordan faz nesse filme é algo fora do padrão de atuação que se vê por ai. Imprimindo toda sua ganância e vontade na atuação, além de ser um dos poucos vilões com uma motivação tão justa que te faça, bem no fundo, torcer por ele. 


Como se já não bastasse, o que começa como uma pincelada e termina com uma cena de arrancar lágrimas dos olhos de qualquer pessoa que tenha o mínimo de compaixão pela causa: O feminino impera! Se quiser duvidar, tente fazer algum comentário machista perto de uma Dora Milaje.

Não para por ai. Referências históricas que vão de Trump a Martin Luther King. De Malcom X a Barack Obama. Dos navios negreiros ao julgamento de Rodney King.
Ryan Coogler não é Grifinória, mas não para de ganhar pontos por essa direção. Isso sem citar as atuações cruciais de Chadwick Boseman, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Martin Freeman, Andy Serkis e, do meu destaque pessoal, Letitia Wright: a irmã tagarela e inteligentíssima do Pantera, que já mostrou um pouco da sua raiva e sede de justiça no episódio Black Museum, na quarta temporada de Black Mirror.

É político, é cuidadoso, é bem fundamentado, é bem orquestrado. Roteiro, fotografia, efeitos especiais, atuações... É um mundo! A Marvel criou um novo mundo!

Um mundo que já existe faz um tempo. E se chama África.

Pantera Negra está nos cinemas de todo país.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CarnaMoz 2018

Não escrevo aqui desde o ano passado (literalmente). Mas o recesso precisava ser, de fato, RECESSO!
E como bom brasileiro, o recesso só acaba depois do carnaval, mesmo fora das terras tupiniquins.

Voltamos ao trabalho, as aulas, aos ensaios, e sobrevivemos ao carnaval moçambicano. Não foi tão parecido com as festas que vemos no Brasil, mas foi gigante. E tinha caipirinha, o que ajuda muito!
Por mais que não seja a cultura que voga por aqui, tem muito de Brasil em Moçambique (ou de Moçambique no Brasil), e nesse final de semana de carnaval, eu senti um frescor que me lembrou minha terra. Eu e os amigos, com umas latinhas de cerveja, com fantasias ridículas, se apertando em um carro para irmos á uma festa que não sabíamos o que esperar! Naquele momento eu sorri sozinho. Era o que eu mais precisava por hora, pois coincidentemente, uns dias antes fui acometido a uma avalanche de saudade e vontade de chorar ao som de Oasis. E quem me viu no CCBM sabe que se tinha uma coisa que eu não estava, era triste.


O Centro Cultural Brasil Moçambique organizou uma bonita e aconchegante festa de carnaval, que começou as duas da tarde e foi até o fim dos tempos. Desde marchinhas a funk carioca, todos dançavam e cantavam. As fantasias iam desde Lampião a Wally e a cada hora aparecia mais gente fantasiada e ainda mais maluca. Quando eu não podia estar mais contente e rindo a toa, conhecendo gente nova e reencontrando antigos amigos, dando entrevista bêbado pra TV moçambicana e com o copo de caipirinha ainda cheio, surgiu um bloco! Uma galera uniformizada, com uns instrumentos improvisados, caras pintadas, tocando O TERROR! Fizeram uma roda no meio da galera e entoaram músicas do arco da velha do folclore carnavalesco. E era um bloco emponderado! Com mulherada mandando ver no surdo, na caixa, no chocalho e no samba no pé. Foi nessa hora, ao som de 'quem me ensinou a nadar', que decidi fazer uma panorâmica mental. No bloco: brasileiros, moçambicanos e portugueses, brancos e pretos. Em volta, dançando e cantando: adultos com bebês de colo, crianças dançando dentro da roda, senhores e senhoras juntos cantando todas aquelas antiguidades. Brasileiros, moçambicanos, gente de países que não se percebe a olho nu. Olhei pro meu lado esquerdo e meus três amigos noruegueses dançando e tentando cantar as músicas. Olhei pro meu lado direito e tinha uma criança muito pequena, vestida de Homem Aranha, pulando quase tão alto quanto sua própria altura. Nos segundos em que percebi tudo isso, meu ascendente em câncer falou mais alto e meu olho marejou. Acabei chorando um pouco. Ao som de um bom samba.
Minha amiga me perguntou: Tá tudo bem?
- Não poderia estar melhor

Depois de chorar e me deliciar com aquela epifania maluca, fui buscar mais uma caipirinha. Eu e meus amigos fomos para uma outra festa de carnaval, comer uma feijoada e curtir um pagode. Confesso já não lembrar muito dessa parte, mas sei que foi divertido! Uma cortesia da Music Crossroads para mudarmos um pouco os ares, e foi providencial! Obrigado!


Quando eu tinha uns 15 ou 16 anos e estava começando minha carreira como músico roqueirinho, sempre achei o carnaval simpático, mas meio cafona. Toda essa gente fazendo loucuras, desfiles enormes, felicidade transbordando... Tudo isso me soava quase falso! Algum tempo depois, passei a entender melhor as festividades, mas pouco aproveitava, já que na maioria das vezes eu estava tocando em bares ou blocos, vivendo o final de semana do ano em que eu mais lucrava e menos curtia. Nesse ano, estou em outro país. Não toquei, não lucrei, mas vivi um carnaval frenético. Pulando, dançando, cantando, bebendo e me divertindo. Foi um carnaval que, até onde me lembro, eu nunca tive. E foi bem bom! Não foi um carnaval brasileiro. Não foi um trio elétrico, não foi uma festa de rua nem nada disso. Foi uma festa tipicamente brasileira concebida de forma tipicamente moçambicana: Com alegria, acima de tudo.

Fato engraçado: Tinha uma senhora fantasiada de baiana. Pensei "Nossa, que ofensivo! Baiana não é fantasia!". Fui falar com ela, e ela realmente era baiana. Segui o baile.

Parabéns ao Centro Cultural Brasil Moçambique, Embaixada do Brasil em Maputo e todos envolvidos em mais esse evento de sucesso.

Voltaremos aos trabalhos! Fiquem por dentro por aqui e no canal do Youtube.

Fotos: Dinho Lima @camisaflorida

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

CHAPTER NINE: A DAY WITH YAMANDU COSTA

Até que enfim saiu o registro desse final de semana que nem sei como nomear, de tão 'inomeável' que é. Os dias em que eu e Marcelo estivemos juntos de um ídolo! O grande, talentoso e HUMILDE Yamandu Costa.
Dá uma olhada! Eeeeee se inscreve la no canal, pra ficar por dentro da viagem!