quarta-feira, 28 de março de 2018

CHAPTER TEN: MAFALALA

Capulana barata, cerveja gelada, gente boa e pão quentinho. Bem vindos a Mafalala! O que pode ser chamado de uma versão da favela brasileira em Moçambique também é um dos mais aconchegantes e culturalmente ricos bairros de Maputo. Dá uma olhada!

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terça-feira, 20 de março de 2018

Samora/Marielle - Resistência que sobrevive

Por mais que Brasil e Moçambique sejam pátrias quase irmãs, ainda existem diferenças cruciais politicas e sociais que tornam toda discussão de bar um capítulo a parte na vida dos envolvidos. Há quem diga que no Brasil, tal qual futebol, política não se discute. Um termo que eu, particularmente, considero ultrapassado. Afinal, se existe algo que deve ser conversado, é política (e futebol).
Aqui, a maioria das pessoas não discutem política porque elas não acham que tenha o que discutir. As opiniões são quase unânimes, apesar dos movimentos 'direitistas' e 'esquerdistas' terem braços completamente diferente da pré disposição brasileira pra cada um dos lados.

Samora Machel foi um herói de guerra moçambicano. Sempre esteve nas infantarias das revoluções enquanto bradava seus ideais socialistas. Samora participou da frente de libertação a favor da independência de Moçambique, e logo após a chacina a favor dos ideais do país ter acabado, ele se tornou o primeiro presidente de Moçambique como país independente. Nunca teve problemas em estreitar os laços com o povo, sendo conhecido pelos discursos informais e comoventes, além da já costumeira facilidade de contagiar o povo a enfrentar suas opressões.

Marielle Franco foi a quinta vereadora mais votada da eleição de 2016 e a segunda vereadora mais votada da história do país. Socióloga, militou pelos direitos humanos por toda sua carreira, após uma grande amiga ter morrido depois de ter sido atingida em uma troca de tiros. Era lésbica e morava com sua esposa e sua filha. Entre seus projetos de sucesso enquanto coordenadora da Comissão de Diretos Humanos do Rio de Janeiro estão o auxílio jurídico, financeiro e psicológico a familiares de vitimados em homicídios, em sua boa parte, policiais.


Após mostrar resistência em todas negociações com a União Soviética na década de 80, ao voltar de uma conferência na Zâmbia, o avião em que Samora estava foi estranhamente abatido nas montanhas da África do Sul, perto da fronteira com Moçambique. Eram 33 pessoas dentro da aeronave e nenhuma sobreviveu. Toda tripulação responsável pelo transporte era soviética. Foi provado que não houve nenhum tipo de falha mecânica no avião e que o piloto seguiu informações de um rádio antes da colisão. 
Ninguém sabe muito sobre os detalhes, mas aqui, todos têm uma certeza: não foi acidente. Algumas teorias dizem que a União Soviética estava cansada de ser desrespeitada pelo desbocado presidente, que não facilitava nenhuma circunstância e que em uma discussão mais acintosa, não pensou duas vezes em mandar o embaixador russo ir a merda, fazendo questão que o intérprete traduzisse o termo. Outras pessoas dizem que o regime do apertheid sul africano foi o motivo, se aproveitando do avião em território nacional e o abatendo utilizando comunicação clandestina. Outros, poucos, acreditam ter sido falha humana do desleixado (eles usam essa palavra, "desleixado") piloto.

Marielle nunca escondeu ser contra a ordenação do governo de intervenção militar nos morros do Rio de Janeiro. Em uma de suas ações mais efetivas denunciou policiais truculentos que estavam aterrorizando a região de Acari, periferia carioca. As denúncias saiam aos montes, já que a intenção da intervenção é 'pacificar' os morros. O reflexo que isso tinha nos quartéis ainda não é público, mas é óbvio: Apesar dela também ter ajudado algumas famílias militares, não era bem vista pelos mesmos.
Marielle sempre foi presença marcada em eventos que representavam sua luta e a luta do seu povo. E foi depois de sair de um desses eventos, o 'Jovens Negras Movendo Estruturas', na Lapa, que entre 21h e 22h, o carro em que estavam ela, sua assessora e seu motorista, Anderson Pedro Mathias Gomes, parou em um sinal de trânsito. Segundos depois, um carro parou ao lado e não deu tempo de reação: tiros, causando o óbito instantâneo de Marielle e Anderson. Em Marielle, foram constatados três tiros na cabeça e um no pescoço.
Ninguém sabe muito sobre os detalhes, mas aqui, todos têm uma certeza: não foi acidente. Ainda não houve tempo para teorias pautadas em dados, números e estatísticas. Mas o mais óbvio é que tenha sido uma execução, provavelmente feita ou ordenada por militares, já que a munição usada para fazer os 13 disparos ao carro foi encontrada e ligada a um lote que teria como destino a policia federal. Isso, até então, é o mais próximo de provas reais que o caso oferece, abrindo janela pra julgamentos diversos, como uma frase comum de se encontrar em alguns perfis no Facebook: "Morta pelos bandidos que viveu defendendo". Causando estranhamento, já que se isso caracterizasse assalto, faria sentido algo ter sido furtado.

O que Marielle e Samora tem em comum? No papel, não muito. Samora, apesar de unânime, tinha atitudes que muito provavelmente seriam pauta de uma discussão para Marielle. Como quando algumas das campanhas iniciais de Samora não vingaram, causando a partida de portugueses aos montes, enfraquecendo a indústria de exportação, deixando o presidente transtornado a ponto de cometer atos no mínimo suspeitos, como 'campos de reeducação' que encarceraram prostitutas e testemunhas de Jeová. Ou quando jovens com ensino superior foram enviados a locais pobres com a função de repopular as cidades. Ou sobre como a polícia moçambicana foi equipada e instruída a ser truculenta e repreensiva nos últimos anos da década de 70.
Apesar desses pesares, Samora morreu e segue unânime como herói moçambicano. Marielle morreu como heroína, mas não teve e nem terá essa mesma sorte. Ela não foi heroína de guerra, não proclamou a independência do país que nasceu e nem chegou a presidência (por mais que eu ache que ela toparia uma infantaria fácil!). A luta dela foi local, de dentro pra fora e dentro dos recursos que lhe eram disponibilizados. Marielle tentava, e conseguia, salvar as vidas das minorias batalhando dentro da lei, honrando sua bandeira e, consequentemente, a si mesma, já que antes de ser vereadora, e mesmo no cargo, Marielle era minoria. Mulher, negra, lésbica, natural do Complexo da Maré e a favor dos direitos humanos e dos pobres. Pra não soar demagogo, Marielle tinha entre aprovados e próximos de aprovação, 20 projetos a favor das mulheres e dos pobres. Como a criação da lei Espaço Coruja, para crianças de rua terem onde dormir a noite. Ou o projeto das Casas de Parto para gestantes pobres, sem condição de bons convênios de saúde. Ou o projeto Assédio Não É Passageiro, contra assédios e abusos sexuais nos trasportes públicos, caso infelizmente recorrente.
Parece muito para uma vereadora. E é mesmo.

A morte dela, como pessoa, não a torna mais do que ninguém. A morte dela, como ideologia, como luta, como vitória, é uma perda. É uma lágrima a mais no copo meio cheio do revival de ditadura que está por vir.

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Samora foi presidente. Marielle foi vereadora.
Não falta nada de Samora em Marielle, mas um pouco de Marielle em Samora até cairia bem.